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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Gostava infinitamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio abaixo o lençol que servia de parede, e desde então Ângela não consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.

Muitos anos depois, aos quinze anos, notou-se incomodado por um padecimento estranho. Não disse nada à família e procurou um homem que havia na província com grande habilidade para curar moléstias, viessem elas até do mauolhado e do feitiço.

Santo homem! O mal do nosso estudante desapareceu como por milagre; o que, aliás, não impediu que tivesse daí a pouco de voltar à cama, debaixo de um novo e mais formidável carregamento que o ia varrendo ao cemitério. Foram esses três anos de sezões a que se referia, quando pela primeira vez falou ao Campos.

E Amâncio ,quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais remexia no cinzeiro do passado, tanto mais impacientes lhe rosnavam os sentidos e tanto mais desabrida lhe vinha a necessidade de gozar, de viver em liberdade, de recuperar o tempo que levou sopeado e preso.

— Enfim! concluiu ele, erguendo-se distraído e abandonando o café — a casa do Campos não me convém! não me convém de forma alguma!

Mas a idéia de Hortênsia, que, para se apresentar, só esperava o termo daquelas considerações, invadiu-lhe o espírito e foi a pouco e pouco se estendendo e se esticando por todo ele, até ocupá-lo inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como uma bela mulher que desperta e, entre voluptuosos espreguiçamentos , alonga pela cama os seus membros entorpecidos de sono. E ele, quando deu por si, estava a fazer conjeturas sobre o amor de Hortênsia :

— Seria ardente ou calmo? Meigo ou arrebatado? Que atitude tomaria a bela mulher nos momentos supremos de ventura? Quais seriam as suas palavras, as frases do seu delírio?...

E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se em cálculos infames, em degradantes suposições; tentando, embalde, adivinhar-lhe os pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do coração e devassar-lhe todos os segredos do corpo.

— Oh! Como seria?...

E seu desejo vil começava a despi-la, peça por peça, até deixá-la completamente nua.

— Mas não! não havia possibilidade! contrapunha-lhe a razão. — Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hortênsia não podia ser mais séria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra, o gesto, que lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?... Sim! que fizera a pobre senhora para autorizá-lo a tanto?... Onde estava o fundamento daqueles sonhos, pelos quais queria trocar a sua liberdade, os seus prazeres, tudo, e ficar encurralado em uma casa comercial, com obrigação de entrar às tantas, comer às tantas e guardar todas as conveniências ao lado de uma gente impossível?!...Ora! que se deixasse de asneiras! Não fosse tolo!

Hortênsia Campos aparecia-lhe então como em verdade o era: carinhosa e altiva, afável para todos igualmente, sem dar a nenhum o direito de supor uma preferência. Amâncio já não a tinha descompostas defronte dos olhos mas respeitosamente restituída ao seu vestidinho de chita, à suas botinas de duraque, quase sem salto, e às tranças honestamente penteadas.

— Mudava-se! Que dúvida! Sim! Uma vez que Hortênsia nada mais era do que uma senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali?...Não seria decerto pelos bonitos olhos do Campos!

* * *

As oito horas, quando entrou em casa tinha já resolvido não ficar ali nem mais um dia. — Era fazer as malas e bater quanto antes a bela plumagem!

Mas também, se por um lado não lhe convinha ficar em companhia do Campos: por outro, a idéia de se meter na república do Paiva não o seduzia absolutamente. Aquela miséria e aquela desordem lhe causavam repugnância. Queria liberdade, a boêmia, a pândega — sim senhor! tudo isso, porém, com um certo ar, com uma certa distinção aristocrática. Não admitia uma cama sem travesseiros, um almoço sem talheres e uma alcova sem espelhos. Desejava a bela crápula, — por Deus que desejava!mas não bebendo pela garrafa e dormindo pelo chão de águas - furtadas! — Que diabo! — não podia ser tão difícil conciliar as duas coisas!...

Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a cômoda estava uma carta que lhe era dirigida; abriu-a logo:

“Querido Amâncio.

Desculpe tratá-lo com esta liberdade; como, porém, já sou seu amigo, não encontro jeito de lhe falar doutro modo. Ontem, quando combinamos no Hotel dos Príncipes a sua visita para Domingo, não me passava pela cabeça que hoje era dia santo e fazíamos melhor em aproveitá-lo; por conseguinte, se o amigo não tem compromisso, venha passar a tarde conosco, que nos dará com isso grande prazer.

Minha família, depois que lhe falei a seu respeito, está impaciente para conhecê-lo e desde já fica à sua espera.”

Assinava “João Coqueiro” e havia o seguinte post-scriptum: “Se não puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha. Resende n...”

(continua...)

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