Por Visconde de Taunay (1872)
Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabelos grudados ao casco e escorrendo água que ele se levantou, justamente quando entrava Pereira.
Nesse momento, assumira o tipo daquele homem proporções do mais pasmoso grotesco; entretanto, tão vária é a apreciação de cada um, tão caprichoso o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se de Cirino, disse baixinho:
— Vosmecê já reparou, amigo, como este estranja é figura bonita? Tão arco! e que olhos que tem!... As mulheres hão de perder a cachola por causa deste bicharrão... Então, Senhor Mala, continuou interpelando em voz alta o seu espécime de beleza masculina, que tal, passou aqui a noite?
—Oh! Senhor Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem óculos. Já lhe respondo... espere um bocadinho.
E ainda todo molhado, correu a tomar os óculos, que assentou em cima dos salientes lúzios.
—Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem pecados...
—Então, observou Cirino, quase mau grado seu, tenho-os eu; porque, da meia-noite para cá, não pude mais pregar olho...
—Isto e volta de algum namoro, replicou Pereira, batendo-lhe com força no ombro e rindo-se.
Cirino descorou ligeiramente.
— Sim, vosmecê é moço... deixou lá por Minas algum rabicho, e de vez em quando o coração lhe comicha... Está na idade...
—Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.
—Não é? insistiu Pereira. Ora, confesse... não lhe fica mal... Isso é volta de enguiço...
—Juro-lhes, balbuciou Cirino.
—Oh! se é, confirmou José Pinho, que julgou dever meter o bedelho na conversa, eu no Rio de Janeiro... Negócio de salas, é de por um homem tonto. Não lhes conto nada, mas uma vez...
Voltou-se o alemão para ele com calma, e, interrompendo-o:
—Juque, vá ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando gente branca está falando com o seu patrão.
E, como o camarada quisesse retorquir:
—Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para nada.
Deu José meia dúzia de muxoxos abafados e foi embora, praguejando entre dentes.
Novamente supôs Meyer dever desculpá-lo.
—Bom homem, disse, bom homem... porém fala terrivelmente!
—Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria certificar-se de coisa posta muito em dúvida, deveras o senhor anda palmeando estes sertões para fisgar anicetos?
—Pois não, respondeu Meyer com algum entusiasmo; na minha terra valem muito dinheiro para estudos, museus e coleções. Estou viajando por conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... E muito precioso!
—Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem havéra de dizer que até com isso se pode bichar! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atrás de vaga-lumes e voadores do mato, como menino às voltas com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Se eu não tivesse família, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões afora, porque sempre gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrução... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe. Homem de repentes... Vem-me cá uma idéia muito estrambótica às vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se há alguém esturrado e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como ninguém... O caso era meter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o remédio onde quisessem... mas duvido que o achassem.
—Como vai a doente? perguntou distraidamente Cirino, cortando aquela catadupa de palavras.
—Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quase boa. Está com outra feição. O senhor fez um milagre...
—Abaixo de Deus e da Virgem puríssima, concordou Cirino com toda a modéstia.
—O senhor não cura? perguntou Pereira a Meyer.
—No senhor. Sou doutor em filosofia pela universidade de Iena, onde...
—Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.
—No senhor. É uma cidade.
—Ninguém diria... Pois, Senhor Mata, continuou Pereira apontando para Cirino, ali está um com quem moléstias não brincam.
—Ah! rouquejou o alemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito conhecê-lo como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...
—Se é.! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de propósito, para pôr de pé a menina... uma filha minha... Caiu-me a talho de foice e...
Não pôde Cirino furtar-se a um movimento de vanglória. Com ar grave interrompeu:
—Não fale nisso, Senhor Pereira; o caso era simples. Febre das enchentes... não vale quase nada. Vi logo o que era de urgência; um simples suador, duas ou três doses de sulfato de quinina... e ficou tudo sanado... E simplicíssimo... O estômago não estava sujo... não havia necessidade de vomitório...
Ouvira Meyer estas indicações terapêuticas com os olhos muito fitos em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira, disse com um aprobatório aceno de cabeça:
—Pom médico! Com médico!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.