Por Bernardo Guimarães (1872)
- Não se enfade, senhor Leonel; não é nesse sentido que falo; bem conheço o seu desinteresse. Mas todavia ficaria com um escrúpulo n’alma, se não lhe fizesse essa revelação e não lhe declarasse que estou arruinado.
- Deveras, senhor Major? . . .
- É a pura verdade; completamente arruinado. Este maldito garimpo, que seduz e cega o homem mais do que a mesa do jogo ou a meretriz artificiosa, tem-me devorado em pouco tempo todos os meus haveres, uma sofrível fortuna adquirida à custa de longos anos de trabalho na lavoura e no comércio, sem a mínima compensação. Minha fazenda, meus escravos estão hipotecados quase até o último, e em breve a miséria virá bater-me à porta. Desculpe-me esta franqueza; eu não devia ocultar-lhe as minhas circunstâncias, porque não me ficaria airoso dar-lhe a minha filha em casamento, sem que o senhor soubesse que casava-se com a filha de um miserável.
-miserável. . . não diga tal, senhor major! isso nunca! mas, ainda que fosse um mendicante, mesmo assim eu teria orgulho de ser esposo de sua filha.
-mas a desonra. . . bem sabe que o público é implacável para com o negociante ou especulador infeliz.
- Qual desonra, senhor Major! o mau sucesso de uma especulação, contanto que seja lícita, não desonra a ninguém. Não se acovarde por essa forma. . . não faltarão meios de reabilitar-se. Tranqüilize-se; o público e o comércio não serão tão desapiedados como pensa. Pode-se fazer com seus credores um convênio que salvará tudo. Eu me entenderei com eles, e, graças a Deus, estou em circunstâncias de lhe poder ser útil sem sacrifício meu.
Dir-se- ia que o Major mui de propósito fazia aquela confidência a seu futuro genro para sondar sua generosidade e provocar o seu oferecimento. Mas não era assim; o major fazia-lhe aquela revelação porque entendia que era de seu dever, e procedia por um impulso de franqueza que lhe era natural. A princípio, portanto, o generoso oferecimento do jovem baiano o perturbou e desconcertou algum tanto; mas depois penetrou-lhe na alma como o raiar de uma dupla esperança. nesse enlace estava a felicidade da filha e a salvação de sua fortuna.
- Não, senhor! perdão! nem falemos nisso- replicou o Major algum tanto enfiado; longe de mim a idéia de lhe ser pesado; e o que diria o povo? . . .
- E que tem o povo com os nossos negócios, e nós com o que ele dirá?
- Dirá, e com aparências de verdade, que contratando este casamento especulei com a sua generosidade.
- Não tem direito a dizer tal. Sabia eu por acaso do estado dos seus negócios quando lhe pedi a filha em casamento? e entretanto, desde que aqui cheguei, as pirei a ser seu genro. E há nada mais natural do que o genro socorrer ao sogro, ou o sogro ao genro? Sois demasiadamente escrupuloso, senhor major.
- Pode ser; mas. . .
-mas. . . nem falemos mais nisso, caro Major; são horas de nos divertirmos.
Algumas pessoas, que chegaram e vieram cumprimentar o Major, acabaram de pôr termo àquela conversação.
Leonel foi sentar-se ao pé de Lúcia, que já tinha voltado à sala. A coitada parecia que estava assentada em uma cadeira de ferro em brasa. Seu olhar era incerto, mudava de cor a cada momento, mal respondia às perguntas que Leonel lhe dirigia, e às vezes parecia querer levantar-se bruscamente, e deitar-se a correr pela casa a dentro. Mas aos olhos de Leonel tudo isto tinha uma explicação, aliás plausível para quem não conhecia o estado do coração de Lúcia. Era o acanhamento que resulta da emoção que sente toda a moça ao ver perto de si um homem apenas conhecido, e que tem de ser seu marido.
O Major por sua parte, pouco conversava, e andava pensativo, ocupado em refletir nos meios que empregaria em um novo assalto que projetava dirigir contra o coração da filha, para reduzi-la a dar o sim. Agora, que nesse casamento via também a reabilitação da sua fortuna, é fácil conceber com que novo ardor e encarniçamento estava disposto a ataca-la.
Lúcia, por sua parte, só esperava com a maior impaciência pelo momento de recolher-se para dar livre curso a seus pensamentos e a suas lágrimas.
VII - O SACRIFÍCIO
No outro dia Lúcia acordou, ou antes levantou-se, pois bem pouco dormira, cheia de sustos e de tristes
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.