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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

reservas e sem partilhas. A senhora não pode ser a simples companheira do homem a quem se unir. É preciso que esse homem lhe pertença, que viva inteiramente de sua afeição, que se consagre todo à sua felicidade. Se ele tivesse uma idéia, uma preocupação, uma reminiscência, que o disputasse ao seu amor, cometeria uma infidelidade; e a senhora havia de exprobrar-lhe o tê-la enganado. Podia eu, conhecendo-a como a conheço, sacrificar o seu futuro, que deve ser tão brilhante?

Amália pousou os seus belos olhos no semblante de Hermano.

— Tem razão, disse ela docemente. O meu amor não basta para encher tão completamente a sua vida, que não haja lugar nela para outra afeição. Desde que o passado ainda vive em sua alma, o que iria eu fazer senão perturbar a tranqüilidade de seu espírito e profanar as suas recordações? É melhor assim; guardaremos pura e sem ressaibo a lembrança desses poucos dias que vivemos juntos.

Ela ergueu-se, estendendo a mão ao amante.

— Adeus, Hermano.

— Amália!... Talvez.

— Não façamos do nosso amor um galanteio de sala. Já esqueceu Julieta e poderia esquecê-la nunca?

Hermano não respondeu.

— Bem vê que é impossível.

A moça afastou-se lentamente. Hermano entrou na sua chácara; e sentou-se no primeiro banco. A lua vinha assomando no horizonte.

Ouviram-se prelúdios de piano; e uma nota melancólica e suavíssima cortou o silêncio da noite.

Era a voz de Amália que soluçava o Addio del passato da Traviata.

Capítulo 13

Amália, durante a longa vigília daquela noite, se compenetrara bem da situação, em que a tinham colocado os acontecimentos.

A proximidade do homem que amava, e a quem não podia pertencer; a facilidade de vê-lo a cada instante involuntariamente, ou a casa onde habitava; essa certeza de sua presença, ali, a alguns passos dela, era um suplício cruel.

Cumpria quebrar de uma vez esse elo material, já que não podiam unir-se pelos vínculos d'alma.

Amália lembrou-se a princípio de passar fora da Corte algumas semanas que faltavam para a viagem; mas pareceu-lhe melhor apressar de uma vez a partida para a Europa.

Com esta idéia, ergueu-se pela manhã, e saindo do seu quarto encaminhou-se ao gabinete do pai resolvida a fazer-lhe o pedido. Foi, porém, na sala de jantar que o encontrou em companhia da mãe.

Veiga abraçou a filha muito risonho; e prendendo-lhe a loura cabeça no peito, pôs-lhe diante dos olhos uma carta aberta, na qual a moça reconheceu a letra de Hermano.

Antes que ela se recobrasse da surpresa e pudesse ler a carta, D. Felícia lhe comunicara sofregamente o assunto.

Era um pedido de casamento, no qual Hermano manifestava o desejo de obter pessoalmente de Amália o seu consentimento.

— Pode vir? perguntou o pai à filha depois que esta acabou de ler a carta.

— Ainda não, respondeu Amália agitada.

— Quando? disse D Felícia.

— Quero pensar, mamãe.

A senhora, para quem Hermano agora era o homem mais sensato do mundo, fez à filha mui judiciosas observações acerca da conveniência de apressar a decisão; e não se esqueceu de citar em seu abono o conhecido anexim que dá por transtornado o casamento adiado.

Amália persistiu não obstante; e com uma razão que desarmou a mãe.

— Se é preciso que responda imediatamente, mamãe, recuso. É porque desejo aceitar, que peço a liberdade de refletir. Para dispor de minha vida inteira, não são muitos alguns dias.

— Pois bem, Amália, pensa à tua vontade; mas lembra-te de que a viagem está próxima. É verdade que pode-se adiar, até mesmo porque o tempo não anda bom; tem havido tantos temporais. Que diz, Sr. Veiga?

O capitalista, que lia os jornais, levantou os óculos para observar:

— Mas o câmbio é ótimo. A ir não devemos perder esta ocasião.

Amália hesitou durante alguns dias. Ela tinha naquela carta, lida tantas vezes, e guardada consigo, a prova cabal, além de muitas outras, do amor que Hermano lhe consagrava. Mas podia ela confiar a sua sorte desse amor?

Hermano era uma alma nobre, um caráter leal, incapaz de iludí-la Não duvidava dele; mas duvidava de si. Receava não ter força para dominar e possuir esse coração generoso, arrancá-lo ao passado em que se havia sepultado, e ressuscitá-lo à felicidade.

Ela acreditava que o marido de Julieta ainda amava a primeira mulher e vivia de sua lembrança

Mas esse afeto de além-túmulo não podia encher-lhe a existência; e por isso aquela alma rica de paixão e mocidade se desprendia da sua idolatria para buscar no mundo uma expansão, um sentimento de que se nutrisse.

Nesse impulso, Hermano se lançara na realidade, fascinado pela beleza da desconhecida; mas, em breve a ilusão desvanecera-se. O homem regenerado pelo amor casto de Julieta não podia corromper-se numa lição impura. Passada a alucinação, tornara ao seu culto.

(continua...)

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