Por José de Alencar (1875)
Via-se bem que essa altiva e gentil cabeça não carregava um fardo, talvez o espólio de um crânio morto, jugo cruel que a moda impõe às moças vaidosas. O que ela ostentava era a coma abundante de que a toucara a natureza, como às árvores frondosas, era a juba soberba de que a galantaria moderna coroou a mulher como emblema de sua realeza.
Cingia o braço torneado que a manga arregaçada descobria até a curva, uma pulseira também de opalas, como eram o frouxo colar e os brincos de longos pingentes que tremulavam na ponta das orelhas de nácar.
Com o andar crepitavam as pedras das pulseiras e dos brincos, formando um trilo argentino, música do riso mavioso que essa graciosa criatura desprendia de si e ia deixando em sua passagem, como os harpejos de uma lira.
Atravessou a sala com o brando arfar que tem o cisne no lago sereno, e que era o passo das deusas. No meio ondulações da seda parecia não ser ela quem avançava; mas os outros que vinham ao seu encontro, e o espaço que ia-se dobrando humilde a seus pés, para evitar-lhe a fadiga de o percorrer.
Se Aurélia contava com o efeito de sua entrada sobre o espírito de Seixas, frustrarase essa esperança; porque os olhos do macebo nublados por um súbito deslumbramento, não viram mais do que um vulto de mulher atravessar o salão e sentar-se no sofá.
A moça porém não carecia dessas ilusões cênicas. Aquela aparição esplêndida era em sua existência um fato de todos os dias, como o orto dos astros. Se sua beleza surgia sempre brilhante no oriente dos salões, assim conservava-se toda a noite, no apogeu de sua graça.
O Lemos, vendo entrar sua pupila, foi-lhe ao encontro e acompanhou-a até ao sofá:
- Aurélia, tenho a honra de apresentar-lhe o sr. Seixas.
A moça correspondeu com uma leve inclinação da fronte à cortesia de Seixas, a quem estendeu a mão, que ele apenas tocou. Ainda neste momento o moço não conseguiu de si fitar a pessoa que tinha em face.
Esse rosto desconhecido incutia-lhe indizível pavor; porque era a fisionomia de sua humilhação.
Aurélia para romper o enleio da apresentação, começara com o tio uma dessas conversar de sala, que suprem o piano e o canto; e que não passam, como eles, de um rumor sonoro para entreter o ouvido.
A extrema volubilidade com que a palavra lhe brincava nos lábios, fazia contraste com a rispidez do gesto sempre harmonioso, e com um refrangimento que por assim dizer congelava-lhe o lado do perfil voltado para Seixas.
Entretanto dissipou-se a grande comoção que percutira profundamente o organismo desse homem, desde o momento da entrada de Aurélia no salão, e lhe havia embotado os sentidos. Uma voz melodiosa penetrou-lhe n'alma, acordando ecos ali adormecidos. Pela primeira vez pôs os olhos no semblante da moça e imagine-se qual seria o seu pasmo reconhecendo Aurélia Camargo.
Por algum tempo julgou-se vítima de uma alucinação. Custava-lhe a convencer-se que tivesse realmente diante de si a mulher de quem se julgava eternamente separado. A comoção foi tão forte que desvaneceu quase de seu espírito a lembrança do motivo que o trouxera aquela casa, e a posição falsa em que se achava. Uma satisfação íntima o absorveu completamente, e não deixou presas às amargas preocupações que pouco antes o dominavam.
Também Aurélia de sua parte havia recobrado a calma, pois voltou-se sem o mínimo acanhamento para o moço e perguntou-lhe:
- Esteve ultimamente no norte, sr. Seixas?
- Sim, minha senhora. Cheguei a semana passada de Pernambuco.
- Onde desempenhou uma comissão importante, acrescentou Lemos.
- O Recife é realmente tão bonito como dizem?
- Creio que poucas cidades do mundo lhe poderão disputar em encantos de perspectiva e beleza de situação.
- Nem o nosso Rio de Janeiro? Perguntou Aurélia com um sorriso.
- O Rio de Janeiro é sem dúvida superior na majestade da natureza; o Recife porém prima pela graça e louçania. A nossa corte parece uma rainha altiva em seu trono de montanhas; a capital de Pernambuco será a princesa gentil que se debruça sobre as ondas dentre as moitas de seus jardins.
- É por isso que a chamam de Veneza brasileira.
- Não conheço Veneza; mas pelo que sei dela, não posso compreender que se compare a um acervo de mármore levantado sobre o lodo das restingas, com as lindas várzeas do Capiberibe, toucadas de seus verdes coqueirais, a cuja sombra a campina e o mar se abraçam carinhosamente.
- Já vejo que o senhor encontrou a musa no Recife, observou Aurélia gracejando.
- Acha-me poético? Não fiz senão repetir o que provavelmente já disse algum vate pernambucano. Quanto à minha musa... ficou anjinho: morreu de sete dias e jas enterrada na poeira da secretária! Respondeu Seixas no mesmo tom.
Tinham entrado várias visitas, cuja chegada interrompeu este diálogo. Aurélia ergueu-se para receber as senhoras, enquanto os cavalheiros se derramavam pela sala esperando o momento de apresentar suas homenagens à dona da casa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.