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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— D. Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mór, disse-lhe vivamente: «Mau pai, êste homem faltou-me ao respeito». Então?… O resto não carece. 

— Diga, Arnaldo! bufou o colosso. 

— Então o capitão-mór aproximou-se e, segurando-o pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos, até que o pôs em pé. 

— E m’a teria arrancado com certeza, se não me erguesse na ponta dos pés. Um insulto como êste, Arnaldo, só a morte o apaga. Eu queria tê-lo aquí diante de mim, neste momento, para mostrar-lhe o que é um homem. Dizem que é um brutamonte; pois venha para cá. 

Deixou Arnaldo que amainasse a cólera do Moirão. 

— Sou seu amigo, Aleixo; já lho disse, e avalio quanto custa a um homem de brio não desafrontar sua honra. Mas eu não consinto que ninguém neste mundo ofenda ao capitão-mór e sua família; portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza de que me há de encontrar pela frente. 

— Com você não brigo; isto é decidido. De brincadeira como hoje, sim; mas a valer, não.

— Então desiste? 

— De que? 

— Da vingança. 

— Isso nunca! 

— Neste caso você sabe o que se faz duma árvore que ameaça cair-nos em cima? 

— Corta-se. 

— É o que eu farei, senão houver outro meio de arredá-lo. O mesmo direito tem você, Aleixo; e como a sorte é vária, se for eu que venha a morrer, desde já lhe perdôo. Afiançou-lhe que, a-pesar-de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste. 

O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu em sua manopla: 

— A estas mãos, Arnaldo, não pode morrer nunca. Minha honra, você não a pode atacar, que é um amigo, e para poupar minha vida não atacarei nunca a daquele que a salvou uma vez. 

— Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais queridos que tenho neste mundo; porque o capitão-mór serviu-me de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança, me acalentou ao peito como seu filho. 

Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação.Afinal, reconhecendose incapaz de resolver a terrível colisão, deu segundo murro na testa e arrancou pelo mato fora. 

Era êste um meio físico de atenuar a dificuldade de sua posição, subtraindo-se por enquanto ao dilema fatal em que se achava colocado entre a honra e a amizade. 

O sertanejo, quando o viu desaparecer através da ramada, tomou a mesma direção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e a esmo. Certo de não poder perder o rumo e de acompanhá-lo como à sua sombra por entre a espessura do mato, êle demorava-se a examinar a copa das árvores, os rastos dos animais, as moitas de ervas e todos os acidentes do caminho. 

O homem da cidade não compreende êsse hábito silvestre. Para êle a mata é uma continuação de árvores, mais ou menos espêssa, assim como as árvores não passam de uma multidão de fôlhas verdes. Lá se destaca apenas um tronco secular, ou outro objeto menos comum, como um rio e um penhasco, que excita-lhe a atenção e quebra a monotonia da cena. 

Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo ou um conhecido a quem saúda passando. A seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e números. 

Arnaldo estivera ausente daqueles sítios algum tempo. Ao passar por êles observava sua fisionomia, tão inteligente e franca para êle, senão mais do que a face do homem; e lia nesse diário aberto da natureza a crônica da floresta. Uma fôlha, um rasto, um galho partido, um desvio da ramagem, eram a seus olhos vaqueanos os capítulos de uma história ou as efemérides do deserto. 

A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que, a-pesar-de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar onde estava. 

Com pouco ouviu-se um vozear de prática animada, e cinco homens, trajados como usava a gente do povo naquele tempo, de braga, véstia e gibão, surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao ombro e uma parnaíba à bandoleira. 

O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica; os outros, serviçais da fazenda. 

— Oh! cá está quem sabe do diabo do velho! exclamou o feitor, dirigindo-se a Arnaldo. Bem aparecido! 

— Quer alguma coisa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo. 

— O senhor capitão-mór mandou-me procurar o velho Jó que deitou fogo no mato da fazenda. 

— Procure-o; disse Arnaldo laconicamente. 

— Não está má a encomenda! Que temos feito desde o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se. 

— Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e êle estourou. O fogo foi pegado pelo ênxofre que êle tinha no corpo, o canalha do bruxo. 

— Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor. 

— É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça. 

(continua...)

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