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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Era costume naquele tempo, mais do que hoje, de acompanharem-se as dignidades da igreja de não pequeno número de fâmulos, de ordinário mancebos que na qualidade de minoristas cursavam as aulas e se preparavam para tomar as ordens maiores. Formavam essas famílias eclesiásticas pequenos seminários, que se não eram de profanidades, como dizia um célebre pregador, não estavam isentos delas. 

Entre os fâmulos do nosso prelado, e primeiro dos minoristas, contava-se um sobrinho. Cláudio de nome, endiabrado rapaz, que fazia-as todas e dava sota e bastos ao mais arteiro dos garotos da cidade. 

As horas de folga e os dias de sueto, passava-os aquela rapazia trepada na pitombeira, comendo fruta e desinquietando as vizinhas, a quem atiravam as cascas e perseguiam de galhofas. De todas, porém, as mais expostas às chácaras dos minoristas eram a Miquelina, mulher do tabelião, e sua filha Marta, por ficarem defronte. 

Das grimpas da árvore, ocultos pela folhagem, devassavam os rapazes não só todo o quintal, como a varanda de jantar, e os quartos do outão. Não punham mãe e filha o pé na cerca, nem passavam por perto das janelas, que não fossem alvo dos remoques e chacotas dos brejeiros. 

Advertido o Sebastião do desaforo, uma vez saiu à varanda com a sua mais grave compostura tabelioa; e em voz de audiência, fanhosa e estridente, intimou aos rapazes que se comedissem. A resposta foi uma tremenda surriada e um granizo de caroços de pitomba, que bombardeou a respeitável penca do Sebastião Ferreira. 

Vendo em grave risco, não somente a integridade de sua pessoa, como a dignidade de seu caráter publico, o tabelião bateu em retirada, e abrigou-se por detrás de uma pilastra da varanda. 

Com os escreventes acudira o Ivo, que aproveitara a ocasião de avistar-se mais de perto com Marta, e atirar-lhe um segredinho ao passar por alguma porta entreaberta. A vista do desacato que sofrera o Sebastião, correu o rapaz a ele: 

— Deixe-os estar, senhor tabelião, que amanhã virei munido de meu bodoque, e então lhes faremos as contas. Hão de ver o que é mais rijo, se as suas pitombas, ou os meus carolos de barro. 

Ficou o tabelião um instante perplexo, e como saboreando o antegosto daquela desforra que lhe oferecia o escrevente; mas ao cabo, resolveu não consentir na travessura do rapaz. 

— Nada de vias de fato, moço, que não condizem com um oficial de Justiça de El-Rei. Estou que eles com a ceboleta que lhe dei se aquietarão; e quando não, irei então às vias judiciais, e terão de haver-se comigo. 

Longe de se aquietarem, redobraram os minorenses as diabruras, e tão apoquentadas se viram a Miquelina e a filha, que todo o santo dia viviam encerradas na sala de frente, para escaparem às chançonas dos formigões. Não tardou porém que desconfiassem do couto, e então levavam a espiar pela rótula, atirando bouquinhas e escritinhos pelas frestas. 

Quando se tornavam por demais insuportáveis, a senhora Miqueima mandava pela filha chamar o tabelião, o qual tomando a competente pitada, sobraçava o seu espadim de cerimônia, encaixava na cabeça o enorme tricórnio, e saía fora flanqueado dos escreventes armados de réguas, cunhetas e cabos de vassouras. Com a aparição daquele piquete, desaparecia o bando dos miriorenses, que se ocultava no canto da casa, à espera de vez para outra investida. 

A princípio mordia-se o Ivo com a maganeira dos minorenses; porém mais tarde, cogitando melhor, se consolou da perseguição que faziam à moça, pelas ocasiões que lhe davam de vê-la no cartório, quando ia ao pai com recado da senhora Miquelina. 

Além dessas rápidas entrevistas, arranjara o Ivo um meio engenhoso de comunicar-se inocentemente com Marta. 

Tinham as casas antigas uma particularidade, de que nunca me deram cabal explicação. Havia nas portas interiores junto ao solo, uma pequena aberta em meia-lua, de palmo de altura. Se era para não impedir ao bichano a caça dos ratos; se para dar a estes passagem franca, evitando que roessem a tábua ou esburacassem o soalho, é ponto este de arqueologia que ainda não foi decidido, e espera a profunda investigação dos que desenterraram os ossos de Estácio de Sá. 

O certo é que na porta da serventia interior do cartório havia um rombo daqueles; e que uma galinha com a sua ninhada de pintos, abusando da liberdade, que as donas de casa costumam deixar nesse período interessante da criação, todas as manhãs se introduzia no santuário forense; e faltando com o respeito devido à veneranda poeira daquela arca, levava a ciscá-la por baixo das mesas e prateleiras. 

Foi essa visita uma fortuna para o Ivo, que sentia a sua jovial mocidade sufocada pelo silêncio espesso e polvorento daquela atmosfera de alfarrábios. Desde o primeiro dia em que apareceu-lhe a ninhada no cartório, buscou ele entrar na privança e ganhar a amizade daquela família galinácea. Mas a poedeira mostrou-se arisca, lembrada sem dúvida dos pontapés que lhe disparavam o tabelião e seus escreventes, quando ela passava-lhes por baixo da mesa. 

(continua...)

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