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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Até aquela noite todos os esforços se tinham frustrado; à sua insistência a moça tinha oposto a pertinácia do capricho feminino. Quanto mais atento ele estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ela ficava para não cometer a mínima falta.

Horácio porém resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora à casa de Sales, no domingo em que estamos.

Quando se ofereceu ocasião, travou com Amélia, recostada à janela, o seguinte diálogo:

— Como é bonita! disse ele contemplando a moça com enlevo.

— Ainda não tinha percebido? perguntou ela com irônica faceirice.

— Não, D. Amélia, não; porque de cada vez a acho mais bonita; todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquela que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.

— Que tenho eu demais?

— Não sei; tem uma auréola de beleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flor em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anéis de seus cabelos castanhos parecem impregnados de um fluido misterioso, que se derrama em torno. Mas de toda a sua formosura há uma coisa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus lábios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!

— O que é então?

— Para que dizê-lo? Para que revelar a minha paixão a quem dela escarnece? Se eu o confessasse, cessariam o suplício que tenho sofrido, as ânsias que estou curtindo? Não; haviam de aumentar se isso fosse possível. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.

— Explique-se: confesso que não o entendo. Que suplício tem o senhor sofrido?

— A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquele que a ama sinceramente, e só por espírito de contradição. Uma coisa inocente, um favor pequenino... permite aos estranhos e indiferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ela. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amélia, que suplício tenho eu sofrido. Este, de ser consumido a fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!

A moça, com as faces incendidas em rubor, lutava no alvoroço e confusão, que iam se apoderando de toda sua pessoa.

— Entende agora, D. Amélia?

— Não! murmurou trêmula.

— Pois não percebeu ainda, que há uma coisa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o propósito de escondê-la a meus olhos, cansados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de ver-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrever de longe o objeto de minhas adorações?

O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.

— Para que negar, D. Amélia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.

— Eu, não!

— A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Se não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pezinho mimoso, que me mata com seu rigor.

Uma visita que entrava na sala, deu a Amélia um pretexto para fugir, disfarçando seu rubor e perturbação, no afã da recepção das senhoras que chegavam.

Ao retirar-se, Horácio achou ensejo de trocar uma palavra com a moça, enquanto lhe apertava a mão:

— Não seja cruel!

— Oh! cruel não sou eu, replicou a moça com expressão de ressentimento.

Mais tarde, em sua alcova, enquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anéis do cabelo castanho, Amélia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na véspera, e comparou-as com as queixas de Horácio. A linguagem do primeiro tinha a eloqüência da paixão; parecia vir do íntimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo tinha a graça da sedução: era a vibração passageira das cordas d'alma.

Mas a palavra do leão vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!

Durante uma semana, Amélia não viu Horácio, por uma razão muito simples. O moço, de arrufado, não apareceu durante dois dias; quando se resolveu a aparecer, a moça despeitada inventou um incômodo, e não desceu à sala de visita, pelo dobro do tempo. Se Horácio sustentasse a luta, podia haver sério rompimento.

O leão porém estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem à suserana de seu coração. Amélia o recebeu como rainha magnânima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horácio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.

Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça e abaixando-o à orla do vestido, disse em tom suplicante:

— Me deixa ver?

— Não, respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se:

— Quando cessará este capricho?

— Nunca.

Horácio teve um assomo de impaciência.

— Bem. Não me quer mostrar a mim, Horácio de Almeida; pois há de mostrálo a uma pessoa.

— A quem? perguntou a moça irritada.

— A seu marido.

Amélia tornou-se pálida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo à idéia de que as palavras de Horácio não passavam de um galanteio.

(continua...)

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