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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Silvia Entraram todos pelo jardim, onde passeiam.

Firmino Todos quem?

Silvia A senhora e seus filhos e o sr. Teófilo.

Firmino Ah!... Teófilo... vou encontrá-lo...

Cena 2ª

Silvia; Suzana e Corina

Suzana Já chegaram?... eu ouvi a voz de Júlia...

Silvia Estão no jardim.

Suzana Queres descer ao jardim, Corina?...

Corina Para que, tia Suzana?... Esperemo-los aqui...

Cena 3ª

Suzana: Corina: Teodora: Silvia que se retira

Teodora Tia Suzana! Adeus Corina: (tirando o chapéu e a manta) você guarda [sic] isto (a Silvia que vaise), passei pelo seu quarto, tia Suzana... (ansiosa)

Suzana Saímos dele agora mesmo...

Teod.

Escutam: tia Suzana, eu imponho segredo: se falar, me fará mal: Corina será discreta: é de seu interesse.

Corina Meu Deus! Teod. Resistam, oponham-se à partida para a chácara do Andaraí... não vão... resistam...

Suzana

Por que?...

Teod.

Peregrino, o meu nobre enteado preparou um plano para o rapto de Corina... e este desterro para a chácara isolada... deserta...

Corina (abraçando-se com Suzana) Oh!

Suzana E Firmino?

Teod.

É pai e ambicioso, como sou mãe, e fui má: não tenho o direito de acusá-lo... perdão para ambos!... e agora...

Suzana Agora é o crime que provocou a vingança do senhor!...

Teod.

Silêncio, minha tia; façam o que disse: resistam ambas: não vão para a chácara... mas... segredo: volte para o seu quarto e leve consigo Corina... depressa... não me convém que nos achem conversando...

Suzana Por que tem medo de fazer o bem?...

Teod.

Oh! depois direi, confessarei tudo: retirem-se... depressa... já sinto passos. Deixem-me só...

Corina Tia Suzana! vamos... (levando-a)

Suzana (indo e apontando para Teod.) Ali também há pecado, Corina!... (vão-se)

Teod.

(caindo em uma cadeira) Ah!... (levanta-se risonha à chegada dos que entram)

Cena 3ª

Teodora: Júlia: Teóf.: Carlos: Firmino

Firmino (a Teodora) Eu saí por uma porta e tu entraste por outra.

Teod.

A procurar-me?... Foi o que me aconteceu, procurando-te: quando entrei por uma porta, tinhas saído pela outra.

Firmino Ao menos voltaram mais cedo do que eu esperava e com o melhor dos nossos amigos.

Teod.

E apanhado por feliz acaso: está escrito que Júlia é a mais ditosa das criaturas. (sentam-se)

Júlia

Nem tanto; pois que a minha companhia não pode vencer de todo a preocupação amarga do senhor Teófilo.

Teóf.

Eu protesto: trazia sobre o coração o peso de grande desgosto e quase que o esqueci, achando-me a seu lado...

Júlia Devo perdoar-lhe o quase?...

Teóf.

Deve; porque o desgosto era profundo, e o seu prestígio fez-me alegre...

Júlia Oh, não! O seu olhar e a sua voz foram os bálsamos milagrosos que me curaram a ferida: a sua virtude e consolação angélica que me afoga a lembrança de uma ação indigna de um atentado horrível, que embora me sejam estranhos, abriga a minha reprovação e o meu aborrecimento.

Firmino Um segredo?...

Teóf.

Que não é meu, e que posso docemente esquecê-lo aqui.

Firmino Santas palavras! Janta hoje conosco?

Júlia Janta, sim: e eu hei de obrigá-lo a não pensar mais nesse ruim segredo: serei capaz de conseguílo?

Teóf.

Pergunta se pode fazer o milagre depois de tê-lo feito? O que de resto me preocupa é o meio de vê-la aflita por sua vez.

Júlia Como? Por que?...

Teóf.

Porque se chegar a saber do que se sabe, há de revoltar-se ainda mais do que eu...

Teod.

Algum fato escandaloso...

Júlia Nada há de triste ou de desairoso que possa ter comigo relação...

Teóf.

Oh, certamente; mas os corações generosos choram os males, os martírios alheios como se fossem próprios.

Júlia Os martírios!!!

Cena 4ª

Teod: Júlia: Firmino: Carlos: Teófilo: e um criado que traz uma carta

Criado Pelo correio urbano uma carta para sr.ª Suzana. (Teófilo e Júlia conversam)

Teod.

Uma carta para minha tia!... Que novidade!...

Firmino (tomando a carta e a Teodora) Não conheço a letra do subscrito.

Teod.

Nem eu.

Firmino (a Teod.) Desconfio desta carta: não a devemos entregar.

Teod.

(a Firmino) Cuidado! Teófilo está presente e talvez nos observe... não seria bonito...

Firmino (ao criado) Leva a carta à sr.ª d. Suzana. (vai-se o criado) É a primeira vez que a nossa velha tia recebe carta pelo correio... o fato nos tornou curiosos.

Teóf.

Ah!

Carlos D. Corina será a primeira a ler a carta; porque sempre que se acha com a tia Suzana é a sua leitora obrigada.

Teóf.

Então d. Corina vive confinada aos cuidados da sr.ª d. Suzana?

Teod.

Apenas quando saímos sem ela: fora desses casos vive sempre com Júlia, de quem nunca se separa.

Teóf.

Perdão... escapou-me uma pergunta indiscreta.

Firmino Oh, não houve indiscrição... (conversa com Teodora)

Júlia Pergunte-me tudo: desejo e estimo que conheça toda a nossa vida.

Teóf.

(baixo) Deveras d. Corina é aqui sua companheira inseparável?

Júlia De dia sempre juntas estudando ou brincando; à noite dormimos na mesma sala.

Teóf.

(continua...)

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