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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ (Abre a carta e lê.) – Et coetera!!! “Excelentíssima: tendo empregado três dias em refletir, como v. exa. me ordenou, cheguei à triste convicção de que me cumpre declarar com o mais profundo respeito e dor acerba que dou o dito por não dito, e sou de v. exa. o servo mais dedicado. – Leopoldo Pereira.” Li muito direito: a madrinha quer arquivar a carta? (Apresentando-a.) VIOLANTE – Deita fora esse papel sujo!

CLEMÊNCIA – A titia deve ter paciência, como eu tive...

VIOLANTE – Não me fales!... ainda me ficou o melhor dos três... por fim de contas o mesmo que eu estava resolvida a preferir... (Senta-se agitada e abana-se forte.) IRENE – Mas de que modo se explica semelhante procedimento?

VIOLANTE – Juro que são intrigas desta pombinha sem fel! (Mostra Clemência e abana-se muito.) Por fim de contas está fazendo muito calor!...

CENA VIII

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta terceira carta a Violante e vai-se.

CASIMIRO – Terceira carta! Será possível que...

VIOLANTE (Vai dar a carta a Braz, e arrepende-se; dá-a a Irene.) – Dª. Irene, a senhora é uma santa...

MÁRIO – Apoiado, titia!

VIOLANTE – Uma santa menina que não me enganará: leia, leia a senhora.

IRENE (Abre a carta e lê para si.) – Ah! É demais! Não ouso...

VIOLANTE – Leia, ainda que seja a minha sentença de morte.

IRENE (Lendo.) – “Excelentíssima senhora: tenho a honra de participar a v. exa.

que ontem fiz-me examinar por dois médicos, os quais me declararam com hipertrofia do coração, e condenado ao celibato para viver mais alguns anos que consagrarei ao amor platônico do belo sexo; assim, pois, coagido por força maior e maldizendo da minha hipertrofia, peço mil perdões a v. exa....

VIOLANTE (Arrebata e rasga a carta.) – Basta! Muito obrigada pelo seu favor:

por fim de contas... (A Clemência.) foste tu que os endemoninhaste... mas por fim de contas eles são três demônios.

BRAZ – Madrinha, tudo que Deus faz é por melhor; veja que de três harpias escapou; se se casasse com algum deles sabe o que teria de sofrer?...

VIOLANTE (Encolerizada,) – O que?... O que?... O que?...

BRAZ – Teria de sofrer... et coetera, et coetera, madrinha.

CASIMIRO – E ficamos sem noivo para o banquete do noivado!

BRAZ – Menos essa... já temos um... (Mostrando Mário.) e eis aí outro.

CENA IX

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, LAURIANO e, logo depois, PORFÍRIO.

LAURIANO – Minhas senhoras! Meus senhores! (Cumprimento.) IRENE – Vens radioso de alegria...

LAURIANO – Felicitem-me! Acabo de saber que com ótima aprovação nos exames de suficiência, que fiz, estou habilitado para ensinar diversas matérias de instrução secundária e tenho já prévios ajustes para lecionar em quatro colégios: oito horas de trabalho por dia; mas é quase riqueza, e seria riqueza completa (olhando Casimiro e Clemência.) se me fosse dado reparti-la com a escolhida do meu coração...

BRAZ – Et coetera, Casimiro, et coetera! Isso é claríssimo, e cai do céu; não cai do céu dª. Clemência?...

PORFÍRIO (Arrebatado.) – Que é dele?... Que é dele?... Quero abraçá-lo.

CASIMIRO – Quem?

PORFÍRIO – O capitão Jorge de Souza? Que é dele?...

BRAZ (A Clemência.) – Temo-la travada!

CLEMÊNCIA (A Braz.) – Agora pouco importa.

PORFÍRIO – Mas que é do capitão?

CASIMIRO – Estás doido?

VIOLANTE – Que capitão, senhor?... Não sabe que o meu infeliz primo Jorge morreu há dois anos em combate no Paraguai?

PORFÍRIO – Mas ressuscitou: no Paraguai muitas vezes se ressuscita; aqui está a gazetilha do Jornal do Commercio de hoje... (Mostra o jornal.) VIOLANTE – Ressuscitou! Meu primo!...

PORFÍRIO – Estão cambando?... A gazetilha diz que a notícia é dada pela família; aqui está (Lendo.): “O capitão Jorge de Souza, que todos julgavam morto, escapando ao inimigo que o tinha prisioneiro, apresentou-se aos seus bravos companheiros no mesmo dia da vitória do Campo Largo e chegou ontem a esta corte no transporte de guerra”

VIOLANTE – Meu primo! Meu primo!

PORFÍRIO – Mas é de pasmar! Não os entendo... a gazetilha fala na senhora...

VIOLANTE – Em mim?... Essa é boa! Eu em letra redonda por fim de contas.

PORFÍRIO – Aqui está! Diz, que conforme condição expressa do testamento de seu tio e padrinho, a senhora, sua única e universal herdeira, estava obrigada a entregar toda a herança ao filho, o capitão Jorge de Souza, se em qualquer tempo ele aparecesse vivo...

VIOLANTE – Isso é uma grande mentira; não há tal condição no testamento!

PORFÍRIO – Vamos a melhor!... A gazetilha acrescenta que a senhora ontem mesmo apressou-se a fazer plena entrega da imensa fortuna que herdara, ficando em completa pobreza, mas abençoando generosa a chegada de seu primo. (Violante mede Clemência de alto abaixo.) Explique-me esta embrulhada...

CLEMÊNCIA (Abaixando os olhos.) – A titia perdoe... se a gazetilha não está bem redigida... para outra vez escreverei melhor.

PORFÍRIO – Eu fico às escuras!... Que quer dizer isto?

(continua...)

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