Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Jogador desenfreado e vicioso, deixa que morra em paz a tua vítima antes de sentir a fome e o horror da miséria a que a reduziste! amante da mundanaria: adúltero ostentoso, o teu lugar não é mais ao lado da honestíssima esposa que ultrajaste, é no lodo do lupanar e nas orgias da devassidão!...
ADRIANO – Oh!... é muito!... é muito!... mas... a chave daquela porta! eu quero ver Helena...
CLARIMUNDO – De joelhos, réprobo da sociedade e de Deus! de joelhos! e verte lágrimas que te queimem tanto as faces, e rompe em gemidos, que te rasguem tanto o peito, que possam merecer o perdão da tua ignomínia!...
ADRIANO – Sr. Clarimundo! é demais!... quaisquer que sejam os meus erros...
as minhas loucuras, só meu pai poderia impunemente injuriar-me assim... proíbo-lhe que me fale desse modo!
CLARIMUNDO – Teu pai!... teu pai se envergonharia de tal filho... teu pai te amaldi... talvez te amaldiçoasse... se eu fosse teu pai...
ADRIANO – Não! não!... meu pai não me falaria tão cruelmente!... meu pai se arrependeria de me haver deixado vinte e seis anos no deserto do desprezo e sem a sua bênção!... meu pai encontrando-me envilecido, culpado, se faria meu juiz; mas só para absolver-me num grito do coração!...
CLARIMUNDO – Desgraçado!... e tu... (Em crescente comoção.)
ADRIANO – Não! não!... meu pai não seria execrador implacável; meu pai sentiria no seu seio os tormentos que dilaceram o seio de seu filho!... meu pai, revoltado contra mim, no ímpeto de cólera justíssima levantaria a mão para amaldiçoar-me; mas a sua mão descendo sobre a minha cabeça, faria o sinal de bênção...
CLARIMUNDO – Adriano!... ( Vivíssima comoção.)
ADRIANO – Não! não! meu pai... ah! para que falou de pai ao enjeitado... ao proscrito da família, ao inocente condenado no ventre materno?... se eu tivesse meu pai!
Oh!... meu pai não enjeitaria segunda vez o infeliz que não tem culpa de ter nascido!...
CLARIMUNDO – Adriano!... Adriano!...
ADRIANO – Não! não! não! meu pai, vendo-me na maior desgraça, na aflição mais despedaçadora, meu pai... oh!... meu pai não me amaldiçoaria, meu pai me estenderia os braços, me diria perdão!... choraria comigo... meu pai, que sem dúvida amou minha mãe, não me negaria a chave daquela porta... (Chorando.) meu pai...
CLARIMUNDO (Chorando também.) – Mas... eu sou teu pai!... meu filho!... eu te perdôo!...meu filho!
ADRIANO – Oh!... oh!... meu pai!... (Cai de joelhos: abraçam-se.)
CLARIMUNDO – Adriano!... meu filho!... meu filho!...
CINCINATO (Dentro.) – Eu e o meu doutor... (Clarimundo e Adriano enxugam as lágrimas, etc.)
CENA IV
CLARIMUNDO, ADRIANO, CINCINATO e o DR. GONÇALVES
CINCINATO – O dr. Gonçalves...
CLARIMUNDO e ADRIANO – Sr. doutor...
GONÇALVES – Meus senhores... estou às ordens...
CLARIMUNDO – A nossa doente dorme depois de longo sofrer: teve esta noite vômitos, síncopes, delírio, e ataques nervosos que nos alvoroçaram; o sr. doutor verá o que receitou e lhe fez aplicar o seu colega assistente; nós, porém, queremos um médico, que vele ao pé da nossa querida Helena.
GONÇALVES – Esperarei junto dela pelo meu colega. O sono, sendo tranqüilo e reparador, é de bom agouro; mas também é em certos casos muito conveniente observar o sono.
CLARIMUNDO – Venha, sr. doutor; conte-nos seus raciocínios com a mais forte emoção moral... tenha a bondade de entrar... (A Adriano que se adianta.) Fica, Adriano, eu to peço. (Vai-se com Gonçalves.)
CENA V
ADRIANO e CINCINATO
ADRIANO – Vês?... eu sou um miserável condenado!... minha mulher está mal e me fecham a porta do seu quarto... isto quer dizer que eu fui o miasma da infecção... que eu sou o assassino de Helena!.
CINCINATO – Tem paciência e espera: nas senhoras os nervos são revolucionários que fazem muito fumo com pouco fogo; cá por mim não te proibia a entrada na câmara de Helena; pelo contrário, para ressuscitar a moribunda receitava um abraço e um beijo do marido.
ADRIANO – Cincinato! (Vai a porta e volta com aflição.)
CINCINATO – Falo sério; desde que se falou em fenômenos nervosos, fiquei mais esperançoso. Deus nos conservará dª. Helena... e com tanto que te cures também da...
ADRIANO – Basta...
CENA VI
ADRIANO, CINCINATO e CLARIMUNDO
CLARIMUNDO – Helena continua a dormir tranqüilamente; o doutor ficou à sua cabeceira, e exige que esperes o seu chamado para te mostrares a tua mulher.
ADRIANO – E que julga ele?
CLARIMUNDO – Parece animado: observando o sono, a respiração e a fisionomia de Helena, mostrou-se contente...
ADRIANO – Oh! que ela viva!... é de sobra para meu castigo o que estou sofrendo; porque é castigo, é punição que Deus me inflige... (Batem palmas.) pode entrar.
CENA VII
ADRIANO,CINCINATO, CLARIMUNDO e VENCESLAU.
ADRIANO – Ah!
VENCESLAU – Criado muito humilde de v. ex.
CLARIMUNDO (A Cincinato.) – Quem é este maltrapilho?
CINCINATO (A Clarimundo.) – Um ratazana... usurário petrificado...
VENCESLAU (A Adriano.) – Criado muito humilde que vem receber as ordens de v.ex. ... como não o encontrei no escritório...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.