Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Cometi uma imprudência em aceitar o braço de um fátuo que não conhecia, respondeu com nobre altivez a senhora; mas o senhor vai já levar-me a meu lugar, se não quiser ver retirar-me só, e dizer em voz alta que qualidade de homem se atreveu a oferecer-me o braço.
– Tanta fereza!...
– Senhor... tornemos à sala... aliás...
– Pois bem... V. Exa. ouvirá primeiro duas palavras, e depois... veremos.
----------------------------------------------------------------------------------- No fim de meia hora os dois entraram na primeira sala.
O cravo que ornava o peito da senhora, tinha passado para o do mancebo. Ele estava radiante; ela muito pálida.
Henrique quando viu o cravo rajado no peito do atrevido moço, deixou-se cair em uma cadeira, como fulminado por um raio.
Depois, passada uma hora, ergueu-se, e Carlos chegou-se a ele.
– Então, Henrique, pretendes ainda bater-te amanhã?...
– Não Carlos; mas parto para França no primeiro navio que der à vela.
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Esta cena ocorrera no meado do ano de 1843.
----------------------------------------------------------------------------------- A senhora morena que se havia tornado pálida, chamava-se Mariana. O nome do mancebo fátuo que se fizera radiante, era Salustiano.
CAPÍTULO VIII
O POBRE ENTRE RICOS
EM CONSEQÜÊNCIA das relações que com seus vizinhos entabulara inesperadamente, Cândido teve de modificar esse correr de vida a que se havia condenado. Se o emprego de seus dias era ainda como dantes todo votado ao trabalho, parte de algumas de suas noites já ele passava fora do velho sótão.
O convite de Anacleto não fora simples fórmula de civilidade. Duas noites depois da tarde em que os moradores do “Purgatório-trigueiro” fizeram sua visita de agradecimento à “Bela Órfã”, Cândido recebeu um bilhete de Mariana, no qual, da parte de seu pai, o convidava para passar algumas horas no “Céu cor-de-rosa”.
De então por diante, força foi repetir a miúdo essas noites de serão, porque, ou novos convites de Anacleto vinham lembrar-lhe e chamá-lo para esse gozo, ou Irias o instigava a ir procurar a sociedade de tão bons vizinhos, mais que tudo porque contava que assim se poderia melhor destruir aquela acerba melancolia de seu filho adotivo.
E Cândido, que parecia abandonar-se a uma como que obediência passiva; que sempre mostrava corresponder de má vontade aos convites de Anacleto; que nunca deixava de resistir às instigações da velha Irias; que quando transpunha o alpendre do “Céu cor-de-rosa”, parecendo querer desculpar-se ante sua própria consciência, dizia entre si “não é voluntariamente, é só por condescendência que aqui venho”; Cândido, se não tivesse até então receio de estudar a fundo o estado de seu coração, sentiria o como lhe palpitava açodado, ao ele subir a escadinha da habitação da “Bela Órfã”.
Cândido estava na situação daqueles que, tendo o espírito mergulhado na dúvida e o coração nadando na verdade, mentem a si mesmos sem querer... sem sentir.
E todavia os serões do “Céu cor-de-rosa” deviam agradar ao jovem melancólico. Ali não o podia turvar nem o peso de uma multidão ruidosa, nem o cansaço de uma vigília prolongada. Os convidados eram poucos, escolhidos, e sempre os mesmos; e à meia-noite todos se retiravam. Até à meia-noite conversavase, jogava-se, e quase sempre o domínio dos serões era exercido pela dança e pela música.
O papel de Cândido era contudo muito limitado nos serões do “Céu cor-derosa”. Ele nunca jogava; dançara à força uma ou outra vez, conversava quase sempre com Anacleto, e a respeito de música se desculpara como pouco entendedor da matéria.
Apesar, porém, de sua completa inação, era Cândido muito bem tratado no “Céu cor-de-rosa”. Anacleto o distinguia da maneira mais positiva; há um mês apenas que vira esse mancebo e já parecia votar-lhe decidida e forte amizade. Mariana o cercava de atenções e cuidados; Celina o tratava com angélica doçura. E a sociedade que costumava reunir-se no “Céu cor-de-rosa”, acompanhava ou fingia acompanhar os donos da casa nos sentimentos que pareciam nutrir por Cândido.
Um só homem do mancebo se afastava; um só homem ali concorria, que mostrava desestimar o pobre mancebo: era Salustiano.
Também de sua parte, Cândido pagava com extrema gratidão aquelas demonstrações de estima.
Ao pé de Anacleto seu coração se abria todo a esse nobre e expansivo sentimento que se chama amizade; sentimento elevado e belo, que um vil interesse não mingua e acanha, nem a baixeza do ciúme tolda e degenera.
Contemplando Mariana, a acerbidade de sua melancolia se aplacava, se mudava quiçá em doce tristura; ele achava naquela mulher um encanto poderoso, que o convidava a amá-la não com esse extremo ardor com que se adora uma amante, mas com a afeição sossegada e benigna que se tributa a uma irmã... a uma boa amiga.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.