Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

“Ouvi o sussurro da multidão, que se espantava da minha temeridade... quase sufocado... subi o primeiro andar... a pobre moça tinha caído desmaiada... levantei aquele precioso fardo, e desci...

“No entanto, o que eu sofria era inexplicável: uma nuvem de fumo densa e ardente me sufocava e abrasava as entranhas... aqui a escada cedia debaixo dos meus pés, e eu tombava com o meu pobre fardo... ali havia um caminho de brasas a atravessar com os meus pés nus... acolá uma tábua caía sobre mim... uma parede estava prestes a esmagar-nos... oh! era horrível!... e só a bondade de um Deus, e a lembrança de minha mãe me deram forças... chegávamos à porta... eu ia outra vez passar por um mar de chamas; mas... um monstro de fumo, imenso... abrasador... insuperável me empurrou para longe!... oh!... eu senti um desespero horrível no coração... a cabeça pesava-me... a boca se abria-se-me as narinas se me dilatavam... e o fumo, o fumo entrava por elas para queimar-me! um não sei quê brilhou diante de meus olhos... um amor da vida, um desejo de salvar-me, forte e irresistível, se apossou de mim... abracei-me com a infeliz moça... fechei os olhos, atirei-me às chamas e não vi mais nada.

“Quando abri os olhos, achei-me num quarto decentemente mobiliado; eu estava deitado, e uma jovem senhora velava junto do meu leito.

“A essa moça tinha eu salvado das chamas com a minha temeridade, e ela por sua vez me salvava então com os seus cuidados e dedicação. Ela chamava-se Emília.

“Graças a mil obsequiosos desvelos eu me restabeleci prontamente; o pai de Emília alcançou a minha baixa e me empregou em sua casa, pois ele é um rico negociante da Bahia.

“Vendo pela minha educação, e por essa fraca instrução que eu tinha adquirido, que só um grande infortúnio me poderia ter obrigado a fazer-me soldado, perguntou pela minha família e pelo meu passado. Eu abaixei os olhos e guardei silêncio; o pai de Emília respeitou o meu segredo e deu-me a sua estima.

“Emília era bela, e eu sensível: nós nos amamos; a gratidão da sua família alimentou o nosso amor.

“Ao tempo coube fazer o resto.

“Em janeiro de 1842 já estava casado com Emília; pareceu-me que a fortuna começava a sorrir-se para mim...

“Era ilusão! a fortuna tinha apenas preparado um novo golpe para ferir-me no coração...

“Há dezoito meses que sou viúvo.

“Por conseqüência, meu tio, agora estou livre; podia voltar ao Rio de Janeiro; mas há alguma outra prisão, que não posso quebrar; é essa cena, que teve lugar na última hora que passei na casa de meus pais. Meu tio, a minha resolução é irrevogável.

“Por falta de um nome ilustre, na carência de tradições de antigos parentes, condes, marqueses, duques, ou elevados fidalgos, a nossa família, meu tio, alimenta o seu orgulho com a lembrança de certas qualidades, com a memória dum caráter forte e talvez extravagante, com que sempre se tem apresentado todos os que têm o sobrenome que eu tive.

“Quando algum dos meus antigos parentes se comprometia a alguma coisa, cumpria a promessa por força, quaisquer que fossem os sacrifícios a que devesse sujeitar-se.

“Um dos meus velhos avós, porque uma vez, em Lisboa, não viu o rei, que passava, e um soldado fez-lhe tirar o chapéu, tratando-o vilmente, jurou que nunca mais traria chapéu na cabeça, viveu ainda cinqüenta anos, e cumpriu à risca o juramento.

“Um outro, sendo levado à Inquisição para ser obrigado a descobrir um segredo que jurara guardar, cortou a língua com os dentes, temendo que as torturas o pudessem nalgum momento fazer esquecer a sua palavra.

“Uma das nossas antepassadas, porque seu filho mais velho se havia portado sem valor num encontro com os infiéis, tomada de vergonha, protestou que nunca mais sairia do seu quarto; só dez anos depois saiu pela primeira vez... num esquife para enterrar-se.

“Meu avô e meu pai deram exemplos da mesma vontade forte, da mesma força de caráter. “Porém, eles diziam que a árvore já de velha começava a perder o antigo viço; que em Vossa Mercê começara ela a definhar; e que eu não era mais que um fruto degenerado.

“Mas eu quero mostrar que, se não sigo em tudo os passos daqueles que me repeliram, acompanho-os, todavia, em alguma coisa; que se não tenho as velhas idéias, os velhos costumes, os velhos prejuízos que eles trouxeram do século passado e queriam fazer vigorar no século presente, herdei deles a mesma fortaleza de coração e firmeza de vontade.

“No meio de todas as extravagâncias, de que eu próprio acuso o meu gênio, sei tornar-me inabalável naquilo a que uma vez determino.

“Meu tio, eu jurei a mim próprio, e aqui o declaro a Vossa Mercê para o fazer presente à minha avó, à minha prima e à pobre Lúcia, declaro, digo, que cumprirei as ordens que recebi dos meus maiores, executarei as suas vontades, modificando-as apenas em um ponto para obedecer também a minha mãe.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →