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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Quando el-rei D. João III repartiu parte da terra da costa do Brasil em capitanias, fez mercê de uma delas, com cinquenta léguas de costa, a Jorge de Figueiredo Correa, escrivão da sua Fazenda; a qual se começa da ponta da baía do Salvador da banda do sul, que se entende da ilha de Tinharé (como está julgado por sentença que sobre este caso deu Mem de Sá sendo governador, e Brás Fragoso sendo ouvidor-geral e provedor-mor do Brasil) e vai correndo ao longo da costa cinquenta léguas. E como Jorge de Figueiredo por respeito de seu cargo não podia ir povoar esta capitania em pessoa, ordenou de o mandar fazer por outrem, para o que fez prestes à custa de sua fazenda uma frota de navios com muitos moradores, providos do necessário para a nova povoação. E mandou por seu lugar-tenente a um castelhano muito esforçado, experimentado e prudente, que se chamava Francisco Romeiro, o qual partiu do porto de Lisboa com sua frota, e fez sua viagem para esta costa do Brasil, e foi ancorar e desembarcar no porto de Tinharé, e começou a povoar em cima do morro de São Paulo, do qual sítio se não satisfez. E como foi bem visto e descoberto do rio dos Ilhéus, que assim se chama pelos que tem defronte da barra, donde a capitania tomou o nome, se passou com toda a gente para este rio, onde se fortificou e assentou a vila de São Jorge, onde agora está, na qual, nos primeiros anos, teve muitos trabalhos de guerra com o gentio; mas como eram tupiniquins, gente melhor acondicionada que o outro gentio, fez pazes com eles, e fez-lhe tal companhia que com seu favor foi a capitania em grande crescimento, onde homens ricos de Lisboa mandaram fazer engenhos de açúcar, com o que a terra se enobreceu muito; a qual capitania Jerônimo de Alarcão, filho segundo de Jorge de Figueiredo, com licença de S. A. vendeu a Lucas Giraldes, que nela meteu grande cabedal, com que a engrandeceu, de maneira que veio a ter oito ou nove engenhos. Mas deu nesta terra esta praga dos aimorés, de feição que não há aí já mais que seis engenhos, e estes não fazem açúcar, nem há morador que ouse plantar canas, porque em indo os escravos ou homens ao campo não escapam a estes alarves, com medo dos quais foge a gente dos Ilhéus para a Bahia, e tem a terra quase despovoada, a qual se despovoará de todo, de Sua Majestade com muita instância não lhe valer. Esta vila foi muito abastada e rica, e teve quatrocentos ou quinhentos vizinhos; na qual está um mosteiro dos padres da companhia, e outro que se agora começa, de São Bento, e não tem nenhuma fortificação nem modo para se defender de quem a quiser afrontar.

C A P Í T U L O XXXII

Em que se declara quem são os aimorés, sua vida e costumes.

Parece razão que não passemos avante sem declarar que gentio é este a quem chamam aimorés, que tanto dano têm feito a esta capitania dos Ilhéus, segundo fica dito, cuja costa era povoada dos tupiniquins, os quais a despovoaram com medo destes brutos, e se foram viver ao sertão; dos quais tupiniquins não há já nesta capitania senão duas aldeias, que estão junto dos engenhos de Henrique Luís, as quais têm já muito pouca gente.

(continua...)

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