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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Outros costumam ir por mar, de umas terras para outras em umas embarcações a que chamam Canoas, quando querem fazer alguns saltos ao longo da costa. Estas canoas são feitas á maneira de lançadeiras de tear, de um só pau em cada uma das quais vão vinte, trinta romeiros. Alem destas ha outras que são da casca de um pau do mesmo tamanho, que se acomodam muito ás ondas e são mui ligeiras, ainda que menos seguras; porque se alagam vão-se ao fundo, o que não têm as de pau que de qualquer maneira sempre andam em cima da água. E quando acontece alagar-se alguma os mesmos Índios se lançam ao mar e a sustentam até que a acabam d'esgotar, e outra vez se embarcam nela e tornam a fazer sua viagem.

Todos em seus combates são determinados, e pelejam mui animosamente sem nenhumas defensivas; e assim parece cousa estranha ver dous, tres mil homens nus de parte a parte frechar uns aos outros com grandes sovius e grita, maneando-se todos com grande ligeireza de uma parte para outra, para que não possam os inimigos apontar nem fazer tiro em pessoa certa. Porem pelejam desordenadamente e desmandam-se muito uns e outros em semelhantes brigas, porque não têm Capitão que os governe, nem outros oficiais de guerra a quem hajam de obedecer nos tais tempos; mas ainda que desta ordenança careçam, todavia por outra parte dão-se a grande manha em seus cometimentos, e são mui cautos no escolher do tempo em que hão de fazer seus assaltos ás aldeias dos inimigos, sobre os quais costumam dar de noite a hora em que os acém mais descuidosos. E quando acontece não poderem logo entra-los por alguma cerca de madeira lhes ser impedimento que eles têm ao redor da aldêa para sua defensão, fazem outra semelhante algum tanto separada da mesma aldêa e assim a vão chegando cada noite dez, doze passos, até que um dia amanhece pegada com a dos contrários, onde muitas vezes se acham tão vizinhos que vêm a quebrar as cabeças com paus que arremessam uns aos outros.

Mas pela maior parte os que estão na aldêa ficam melhorados da peleja, e as mais das vezes se tornam os cometedores desbaratados para suas terras sem conseguirem victoria, nem triunfarem de seus inimigos, como pretendiam; e isto assim por não terem armas defensivas nem outros apercebimentos necessários para se interterem nos cercos, e fortificarem contra seus inimigos, como tão bem prosseguirem muitos agouros, e qualquer cousa que se lhes antolha ser bastante para a retira-los de seu intento e tão inconstantes e pusilânimes são nesta parte, que muitas vezes com partirem de suas terras mui determinados, e desejosos de exercitarem sua crueldade, se acontece encontrar uma certa ave, ou qualquer outra cousa semelhante, que eles tenham por ruim prognostico, não vão mais por diante com sua determinação, e dali consultam tornar-se outra vez, sem haver algum da companhia que seja contra este parecer. Assim que com qualquer abusão destas, a todo o tempo se abalam mui facilmente, ainda que estejam mui perto de alcançar victoria, porque já aconteceu terem uma aldêa quase rendida e por um papagaio que havia nela falar umas certas palavras que lhe eles tinham ensinado, levantaram o cerco, e fugiram sem esperarem o bom sucesso que o tempo lhes prometia, crendo sem duvida, que se assim o não fizeram morrerão todos a mãos de seus inimigos. Mas afora desta pusilanimidade a que estão sujeitos, são mui atrevidos, como digo, e tão confiados em sua valentia, que não ha forças de contrários tão poderosas que os assombrem, nem que os façam desviar de suas barbaras e vingativas tenções. A este propósito contarei alguns casos notáveis que aconteceram entre eles, deixando outros muitos á parte, de que eu poderá fazer um grande volume se minha tenção fora escreve-los em particular como cada um dos seguintes.

(continua...)

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