Por Adolfo Caminha (1896)
O bacharel cruzou os braços diante daquela transformação quase milagrosa.
— Isto não pode deixar de ser obra do Luís! — disse, risonho. Sim, estava quase convencido de que o Luís queria pregar-lhe uma peça. Quem, no Rio de Janeiro, se lembraria dele senão o secretário? Ninguém, absolutamente ninguém.
Ele é que o tratava com um carinho de irmão.
— Você que acha?
— Penso a mesma coisa. Só o Sr. Furtado...
— No entanto, o Furtado não arredou pé do Banco!
— As almas é que não foram... - murmurou, sorrindo, Adelaide.
E enquanto o outro não chegava, discutiu-se a procedência dos móveis.
O secretário foi recebido com exclamações e altos brados de agradecimento e jovialidade.
— Está de muito bom gosto a cama! — repisou D. Branca. — Assim é que eu queria que você comprasse uma...
— E o guarda-roupa! — exclamou Evaristo.
— E a toilette! — fez Adelaide.
Mas o homem era como se estivesse numa casa de orates; fitava um, fitava outro, com ar interrogativo e surpreso.
— As senhoras estão enganadas... Mobília?...
— Quem havia de ser? — interpelou o bacharel, crendo e não crendo na — estupefação do amigo.
— Não mo perguntes a mim, que também não posso atribuir o caso ao meu bodegueiro ou às almas do outro mundo.
— Ora, falemos sério, não foste tu, mas foi o teu grande coração! — resumiu Evaristo, desapontado. — Juro-te!
— Não acredito.
— Melhor pra ti...
Ao final das contas, a dignidade do bacharel teve um ímpeto de orgulho contra "esse misterioso fornecedor gratuito de móveis", e declarou positivamente que ia mandar tudo para o depósito, as cadeiras, a cama, o sofá... tudo! Não aceitava favores de pessoas estranhas e, de mais a mais, ocultas num criminoso silêncio. Tudo para o depósito!
Uma gargalhada do secretário acolheu as últimas palavras de Evaristo, comunicando-se a D. Branca e a Adelaide, que ia abrindo a boca para lamentar "a sua linda cama de ramagens e o seu querido toucador de mármore...".
— Então, vais mandar tudo para o depósito!...
E Furtado novamente ria, batendo com as mãos na mesa, inclinando a cabeça, sapateando.
— Impagável o nosso Evaristo! Simplesmente impagável esse homem com a sua filosofia de algibeira e com os seus ímpetos!
— Não te rias, que estou falando sério! — Por isso mesmo...
E Furtado confessou generosamente, aprumando-se na cadeira, que os móveis tinham sido comprados por ele. Não fizera mais do que um dever de amigo.. . Restava saber se o Evaristo opunha-se à qualidade sofrível do guarda-roupa...
— Qual opor-me! - disse o bacharel todo humilhado com a fineza do secretário. - Escolheste a dedo!
— Mas não para ser entregue ao depósito.
— Para o depósito vou eu mandar os baús de couro e umas velharias do meu tempo de província.
E não se tornou a falar nos móveis e a estima do bacharel pelo secretário aumentou. Evaristo não perdia ocasião de gabar o Furtado, exaltando-lhe o coração generoso, a grandeza d'alma e outras virtudes que ele pouco a pouco ia descobrindo no seu velho colega de Liceu... Um homem como se não encontravam muitos na terra do egoísmo e da hipocrisia, nesse Rio de Janeiro fundamentalmente pervertido, onde as traições contavam-se pelas amizades e ninguém dava crédito senão ao ouro e à maledicência... Um homem que o recebera no seio da própria família e que, depois de o hospedar em casa, inda lhe emprestava dinheiro e fazia surpresas como a da mobília! Era o que se podia chamar um filantropo, um amigo excepcional!
— Que achas?
Adelaide confirmou os elogios, mostrando-se reconhecida às boas intenções do secretário, qualificando-o de generoso, de nobre, de fidalgo, emprestando-lhe todos os caracteres de homem de bem que não alardeia as ações meritórias que pratica. O Sr. Furtado era um exemplo de delicadeza e cavalheirismo. - Evaristo não via como ele a tratava? Interessava-se por ela como por uma irmã; nas refeições, nos passeios, à noite, quando jogavam. E a mulher também, a D. Branca. Ambos muito amáveis!
— São simpatias... são simpatias... — explicava o bacharel, acendendo o cigarro, com uma ponta de vaidade. — Tudo neste mundo é a gente se insinuar... O orgulho mata a aspiração, enfraquece o estímulo.
De manhã, vinham os dois, ele e a esposa, almoçar em companhia dos Furtado, como pensionistas dum botei, e Adelaide passava quase todo o dia embaixo, na sala de jantar, com D. Branca, até à hora da segunda refeição, lendo romances, relendo jornais, discutindo modas, costurando. Uma vida sem preocupações, nem intrigas. D. Sinhá, do desembargador, é que às vezes ia interrompê-las com histórias de namoro e bilhetinhos e novidades de Botafogo, sempre muito misteriosa e muito coberta de pó de arroz. Furtado não gostava dela, não lhe achava encanto e profetizava-lhe horrores!
Que mais podia querer Adelaide? Que outras ambições podia desejar Evaristo? Perguntasse-lho, e eles não saberiam responder. Tinham casa, cômodos independentes. boa mesa, boas amizades, tudo por pouco dinheiro, graças à generosidade do secretário, cuja dedicação parecia aumentar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.