Por Adolfo Caminha (1894)
Na manhã seguinte acordamos para outro passeio não menos agradável. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possível. Cometeríamos indesculpável falta se não fôssemos ver as Cuevas de Bell-mar, essas caprichosas grutas subterrâneas, verdadeiros palácios de cristal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulência de suas maravilhosas estalagmites e estalactites. Era mais uma deliciosa surpresa que nos estava reservada. Ir a Matanzas e não ver as Cuevas equivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo estrangeiro.
Cuevas de BelIa-mar... Entre os numerosos fenômenos que a geologia registra muitos há que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua própria natureza complexa e profundamente científica.
No terreno da geologia subterrânea, com especialidade, inúmeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem dúvida, a formação das cavernas, as escavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da água no solo calcário, formando essas caprichosas pirâmides de cristal, que a ciência denomina estalagmites e estalactites.
As Cuevas de Bella-mar formam um dos mais belos panoramas que se pode imaginar.
Figure-se um grande túnel aberto no subsolo e de cuja abóbada pendem cristais multiformes, cada qual o mais surpreendente, alguns de tamanho admirável, enquanto do chão constantemente úmido sobem outros de igual estrutura, pontiagudos quase sempre, formando, às vezes, colunatas brilhantes, esplêndidos capitéis, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam arquitetados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palácio encantado, à luz dos archotes, porque é impossível percorrê-la sem luz, e a cada passo uma Nova exclamação de surpresa irrompe da boca do observador, espontânea e entusiástica.
É, com efeito, encantador o aspecto das Cuevas.
A atmosfera é quase insuportável, apesar da umidade que se reflete das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acesa.
É, expressamente proibido tocar nos cristais. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recomendando-lhe, de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
Desta vez tínhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.
Nesse mesmo dia o Barroso fez-se de marcha para o país dos ianques, fará Nova Iorque, a bela e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
CAPÍTULO XII
... Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma réstea de luz confortável. Estava interdita a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da baía de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetrável. Não podíamos, que pena! ver Nova Iorque de fora, do mar, abrangê-la toda com um golpe de vista, estereotipá-la na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossais dormia o sono beatifico da madrugada, envolvida num largo capuz de neve através do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisíveis embarcações que bordejavam demandando o porto. Adivinhávamos que muitos vapores transatlânticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
Felizmente não durou muito esse estado quase aflitivo. Por trás do nevoeiro compacto e lúgubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma aparição bendita, rompendo a monotonia branca da atmosfera, e pouco a pouco, à proporção que a neve ia se rarefazendo, o Barroso tomava chegada muito lento, e Nova Iorque destoucava-se num fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alvissareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
Onze horas. Céu limpo e mar chão — como se diz nos diários náuticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais íntima satisfação, com uma surpresa ingênua no olhar, o aspecto risonho da baía cortada de embarcações a vela e a vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistintas, muito descoberta, sem o sombrio majestoso das paisagens americanas do sul, bela na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara àquela hora.
À direita destacava, à boca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin à Nova Iorque lembrando-nos que realmente tínhamos chegado outra vez à terra feliz dos ianques, e d'outro lado erguia-se, iluminando o mundo, a Estátua da Liberdade, belo símbolo de bronze, cujo pedestal ocupa toda a ilha de Bedloe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.