Por Adolfo Caminha (1895)
E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o possível para o não descontentar, trabalhando sempre que havia serviço, de cara alegre, sem constrangimento, na certeza de ir à terra.
Um dia sim outro não ei-lo no seu quarto da Rua da Misericórdia, todo entregue ao descanso, livre, completamente livre de incômodos e obrigações.
Não esquecia de beber seu golito de “conhaque brasileiro”, mas sabia se conter evitando excessos. De resto, era tão calma sua vida, corria-lhe a existência tão doce, tão suave, que ele até estranhava.
Ultimamente começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos... Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia: — Estás magro, ó Bom-Crioulo, que diabo é isso?
— Eu, magro?... e passava a mão no rosto examinando-se. Estarei doente?
— Alguma crioula, hein? — Qual crioula!
Um dia consultou ao grumete:
— Achas que estou emagrecendo?
Aleixo também foi de parecer que sim, mas “era pouca cousa”.
Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranqüilamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de espírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa.
Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelo de amante apaixonado.
Quase um ano de convivência fora bastante para que ele se identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse conhecendo, e a convicção de que Aleixo não o traía, entregando-se à fúria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicavalhe essa tranqüilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que traz o dinheiro guardado inviolavelmente.
Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
— Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo não era tolo nem nada... Tolo era quem se fiasse nele...
E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio aguçados, como presas de tubarão.
A corveta saíra do dique, indo amarrar numa bóia por trás do morro de S. Bento com fronte ao Arsenal.
Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poço, no ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente não tinha liberdade.
Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio — um de aço, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua formidável artilharia; belo conjunto de forças navais, que fazia desse couraçado uma dos mais poderosos do mundo.
Bom-Crioulo desapontou: —... que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer bem os navios: hoje num, amanhã noutro... Até parecia brincadeira!” E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo:
— Por isso é que um marinheiro fica relaxado: por isso...
Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa à proa, tranqüilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praça, lá ia para o couraçado — aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno e agora, de repente, sem quê nem para quê: — Passe... Era mesmo uma perversidade!
Mas, Deus é grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a gente não tinha remédio senão obedecer calada, porque marinheiro e negro cativo, afinal de contas, vem a ser a mesma cousa.
Aleixo consolava-se, resignado: paciência, homem, o mundo não se acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso é que tinham alugado quarto. Um dia sim outro não podiam se encontrar do mesmo modo em terra...
— Agora vê lá se vais fazer alguma... preveniu o negro.
— Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor...
Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a BomCrioulo.
— Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais cantáridas!...
Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto.
— Oh! Bom-Crioulo não tinha ido à terra, como prometera. — Exigências do serviço, pensou. No couraçado a disciplina era outra; o imediato, homem feroz, só falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na sua corveta assim mesmo velha e triste...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.