Por Inglês de Sousa (1891)
Voltou a passear a sala em todos os sentidos, levando a mão à região do fígado e chupando um cigarro apagado.
A chuva continuava, monótona, repenicando nos telhados vizinhos. A flauta do Chico Ferreira cansara. Da casa fronteira vinha um choro de criança manhosa e endefluxada. Os pequenos sinos da Matriz espaIhavam no ar alegres vibrações argentinas, saudando o meio-dia.
A rua continuava deserta. Francisco Fidêncio chegara à janela e não vira pessoa alguma. Pudera! com aquele tempo de cachorro!
Estava de burros, sim, e tinha razão de sobra. Havia mais de meio ano que padre José morrera, e que Fidêncio ficara sem assunto para alimentar a sua correspondência com a folha de Manaus. A questão religiosa amortecera, os episódios da luta iam ficando esquecidos, o terrível adversário do clericalismo estava se tornando inofensivo.
Tivera uma forte tentação de voltar a bulir com os antigos inimigos, para o que não lhe faltaria assunto, graças a Deus. Sabia tudo que se passava em Silves, sem necessidade de espiar, nem de indagar da vida alheia. Contavam-lhe, sem que nada perguntasse.
Podia referir-se ao José Antônio Pereira, que passava por moço de muito bons costumes, mas tinha lá as suas mazelas em casa. Podia contar que o Neves Barriga tinha um serralho no sítio do rio Urubus, e que por isso não queria saber da vila, onde o chamavam os seus deveres de camarista. Que o Valadão, o subdelegado, prendia por dinheiro os negros fugidos, fazendo-se capitão-do-mato. 0 fiscal merecia bem boas sovas pelo estado das ruas que a Câmara o incumbira de zelar, e sem sair das raias do interesse público, que ele, como escritor público, devia e podia superintender, tinha muito que dizer da Câmara, e especialmente dum certo vereador João Carlos, que estava quase sempre na presidência, porque o Neves não gostava de deixar o serralho.
Do Costa e Silva, apesar de amigo, poderia afirmar que pregava de vez em quando o seu carapetão ao Diário do Grão-Pará, porque tinha a imaginação exaltada e era duma credulidade de caboclo. E 0 próprio coletor, o grave e pretensioso capitão Fonseca não ficaria muito livre de culpa, se o Fidêncio quisesse referir-se a certas coisas lá da coletoria que o escrivão Pereira lhe contara muito em confiança...
Mas a dura experiência do passado...
Passara vicissitudes terríveis por causa daquele jeito que tinha para a crítica e o sarcasmo. Conseguira, por um grande esforço de prudência , fugir à tentação em que a falta de assunto o ia despenhando.
Por isso, contentara-se com escrever generalidades contra o clero todo, contra a doutrina da infalibilidade, e especialmente contra os homens do espanhol de Loiola, entremeadas de censuras ao bispo por deixar tanto tempo sem pastor espiritual uma população católica, o que provava, escrevera ele ao Democrata, que a salvação das almas não era a preocupação principal desses senhores de Roma.
Mas que se importava a gente de Silves com o espanhol Loiola e com os homens de Roma?
0 que ela queria era a bela da descompostura a gente conhecida, a referência direta a pessoa do lugar.
À chegada do padre Antônio de Morais o espírito de luta acendera-se novamente no cérebro do Chico Fidêncio. Escovara a opa encarnada e aguçara os adjetivos. A presença do novo vigário parecia prestar-se à crítica que invocasse a humildade cristã. 0 desapego dos gozos mundanos, de que os primeiros apóstolos deram prova. Desde o dia do desembarque solene, em que a sua pilhéria irritante provocara a má vontade dos figurões, Fidêncio não poupara alusões à batina nova, ao penteado, à cara bem rapada, aos punhos engomados do senhor vigário.
Mas o diabo era que ele, Francisco Fidêncio Nunes, não podia ir além dessas alusões.
Chegou novamente à porta do corredor e gritou para dentro, em voz de caixeiro de botequim:
— Olha esse café que saia!
— Já vai, seu Chico. É o diacho da lenha que está muito molhada, respondeu do fundo da cozinha a voz arrastada da Maria Miquelina. — Pílulas, até a lenha!
Fidêncio entrou na alcova, pegada à sala, e saiu logo depois, abotoando-se.
A chuva diminuíra, mas o céu, estava todo alvacento, empastado de nevoeiros. A umidade do ar penetrava pela janela aberta, esfriando a temperatura e causando ao professor uma sensação de arrepio, levantando-lhe pela raiz os pêlos da epiderme. A luz escassa do dia dava aos objetos uma coloração desmaiada que lhes confundia os contornos. As linhas perdiam-se numa obscuridade vaga, ondulante. 0 preto sujo da velha pindoba do teto pesava sobre a sala, acaçapando os móveis e os quadros. Do chão úmido levantava-se um cheiro a bolor e a ponta de cigarros, insípido e fastiento. A galinha de pintos fora-se pelo corredor fora, a passos lentos, catando o pavimento, cacarejando. 0 pio dos pintainhos irritava os nervos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.