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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Mangando, mangando, eu ia, mas era sendo varado pelas galhadas do bicho traiçoeiro... Ainda estou com este pé meio esnocado, mas já lhe piso em riba com vontade...

Luzia desatou as trouxas, e arrumou, cuidadosamente, os víveres, que elas continham, sobre o tosco jirau, enquanto Teresinha torrava café em um caco de pote, mexendo os grãos que se coloriam de castanho, exalando saboroso cheiro.

— Bom, agora vou para a obra – disse Raulino – Até mais ver...

— Espere o café. A Luzia pila num instantinho.

— Café é comigo. Não posso enjeitar – respondeu o sertanejo, com mesuras de agradecimento – Não bebendo de manhã, passo todo o dia com a cabeça dolorida e as fontes latejando...

Teresinha despejou o café fumegante no pilão, e Luzia tomando da mão pesada de pau-d'arco, em poucos minutos, a golpes firmes e cadenciados, reduziu os grãos a leve pó inebriante.

Pouco depois Raulino sorvia, a largos tragos, o adorado líquido, que ele entornava no pires e soprava, tão quente estava. Ao terminar, puxou do cós da ceroula um grande corrimboque de retorcido chifre de carneiro, cuja tampa, de casco de cuia, estava presa pelas correias a um velho lenço vermelho; sorveu enorme pitada do caco, e partiu troteando em ligeiro chouto de andarilho.

A velha, cujo sono já causava estranheza à filha, despertou muito melhorada. Havia muito, não lhe fora dado dormir uma hora a fio.

— É do remédio, mãezinha – dizia-lhe Luzia com alegria infantil, beijando-lhe a mão, trêmula e descarnada – Se Deus for servido, vai ficar boa, aliviada desse martírio. Também já basta, tanto tempo dentro de uma rede!... Mais dias, menos dias, estamos de viagem...

A velha, sorriu-se, complacente e irônica.

— A demora – continuou a filha – é soltarmos Alexandre...

Às nove horas, partiu ela para a cidade, levando a comida do preso. Já estava quase na volta do caminho, quando Teresinha gritou por ela:

— Não esqueça o que me prometeu ontem.

— Deixa estar – respondeu Luzia, fazendo de longe, um gesto de certeza, e desapareceu.

A entrevista na grade da prisão foi a de todos os dias: palavras de consolações de esperança. Alexandre desanimado e doente, para espairecer as amarguras da reclusão, trabalhava para um sentenciado sapateiro que lhe dera, em pagamento do salário, um par de chinelos de marroquim verde para Luzia, presente muito oportuno, porque os dela já os não podia quase sustentar nos pés, tão estragados estavam.

Depois da refeição – disse-lhe o moço à puridade:

— Tenho que lhe dizer; mas só quando não estiverem outros presos perto de nós...

— O que é?...

— Uma intrigalhada... Imagine que levantaram...

A confidência foi interrompida pela aproximação de Crapiúna, que estava de serviço.

— Vamos isso – bradou ele, afetando energia, e piscando sensualmente o olho para a moça – Não quero paleios com os presos. Aqui não é lugar de namoro, nem de bandalheiras. É fazer o que tem de fazer e buscar-se. São as ordens...

Luzia, perturbada com a súbita presença do terrível soldado, não ousou proferir palavra; compôs a trouxa, e partiu, rapidamente, para não ouvir as graçolas, que lhe dirigia a meia voz:

— Ingrata! Não se zangue comigo, meu benzinho... Tenha pena de seu mulato, feiticeira da gente...

Alexandre tiritava de raiva, murmurando entre os dentes cerrados:

— Deixa estar, miserável!... Não hei de ficar preso toda a vida... Nossa Senhora há de me tirar daqui e então aprenderás a respeitar os outros... Peste!... — Não quero conversa com presos e, de mais a mais, gatunos...

A injúria feriu certeira o coração de Alexandre, que se conteve para se não agravar.

O Promotor recebeu Luzia com a benevolência com que sempre lhe ouvia as queixas, as censuras, com ingênuo desembaraço feitas à morosidade da justiça e das diligências, principalmente o tal balanço que nunca mais se acabava.

— Você tem razão, em parte – dizia-lhe, com brandura, o jovem bacharel – Mas a justiça é cega, não pode correr; deve andar com muita cautela, e, por não tropeçar, muito devagar. Além disso; essa demora, que a impacienta, é favorável a Alexandre, para que ele saia limpo de tão malfadado incidente. Tenha paciência, espere mais alguns dias. Há uma pequena complicação por esclarecer.

Luzia ouvia em silêncio, torcendo e destorcendo a ponta do lençol...

— Noto que está hoje muito preocupada. Que lhe aconteceu?... – Nada... – respondeu ela de olhos baixos, hesitante — Sempre que topo com aquele soldado, o coração me bate ao pé da goela e fico meio sufocada... É preciso ter muita paciência...

— Fez-lhe alguma?...

— Fez... Mas não é disso que eu queria falar a vossa senhoria... Era...

— Diga sem hesitação...

— Eu queria pedir-lhe um favor, pelo bem que quer a sra dona...

— Fale...

— Lembrei-me que achou os meus cabelos bonitos...

— Sim, é verdade – afirmou o Promotor corando — E... depois?...

— Então vim aqui para lhe vender...

— Vender os cabelos, Luzia?!...

— Não tenho mais o que vender... É a necessidade... Contento-rne com dois mil réis por eles... Não é caro...

(continua...)

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