Por Aluísio Azevedo (1895)
Estava afinal achado o X do meu grande problema. Consistia em nada mais do que uma pequena inversão de princípios. O meu raciocínio concludente era tudo o que há de mais simples; era o simples:
Um casal vulgar só pode ser feliz enquanto dura de parte a parte a ilusão do amor sensual que o determinou; uma vez esgotada a provisão de amor ou de ilusão, o casal deixa de ter razão de ser e deve ser dissolvido. Logo, a mulher, para ser fisiologicamente feliz, precisa substituir o seu amante por um novo, desde que ele não continue a exercer sobre ela o fascinante prestígio que a cativou. Ora, sendo de todo impossível substituir assim um esposo, o que restava a fazer? — Substituir a ilusão. O ator seria sempre o mesmo, os papéis, representados por ele aos olhos da consorte, é que teriam de variar e seriam sempre novos.
Minha filha, pois, conhecendo um só homem, teria nesse homem uma bela e sedutora variedade de amantes.
Mas, como chegar a semelhante resultado? Como obter na vida prática a execução de tão revolucionário sistema? Como vencer a exigência dos velhos costumes e arraigados hábitos domésticos e sociais? Como poderia eu dispor assim de meu genro e governá-lo na sua íntima vida conjugal? Como conseguiria reformarlhe ou reforçar-lhe, de quando em quando, as suas qualidades insinuativas e os seus dotes de sedução e encanto, para desse modo manter o amor de minha filha sempre no mesmo grau de entusiasmo?
Eis o que principiei a inquirir com alma e coração, até chegar a um resultado satisfatório, como exporei neste manuscrito, se Deus para tanto me conservar vida e saúde. Posso afiançar desde já é que ao amor de mãe nada é impossível por mais transcendente que pareça, quando se trata da felicidade do filho; e que eu, longe de desanimar com o peso da tarefa que me impunha, sentia a minha confiança cada vez mais segura e forte nas energias do meu coração materno.
CAPÍTULO IX
A invariável convivência matrimonial é coisa muito séria, é a grande razão da corrente infelicidade doméstica, é a causa imediata da fatal desilusão dos cônjuges, mesmo daqueles que se casam por amor legítimo e verdadeiro, como eu me casei; é fonte de inevitável desgraça para a vida inteira, desgraça que os noivos ainda mais agravam, imprudentemente, com os recursos artificiais e hipócritas do namoro, quando aliás a mocidade, a graça natural e o amor, deviam ser os únicos agentes da atração que os ajunta e abrocha.
Quando um moço, ou uma moça, quer casar, qual é o seu primeiro cuidado? — Enfeitar-se; ou melhor — disfarçar-se.
Ela recorre às torturas do espartilho para fazer a cinta inverossimilmente fina, às torturas dos sapatinhos apertados para fazer o pé microscópico; recorre aos arrebiques, ao pó de arroz, às opiatas, ao dentista, ao cabeleireiro, à modista. De feia pode fazer de si uma dessas elegantes bonecas de salão, por quem às vezes os homens se enfeitiçam. Ele, por outro lado, trata logo de dar brilhantina e cosmético ao bigode, calça-se com esmero, e estuda os meios, não de conseguir a própria felicidade e a daquela que pretende para esposa, mas de tornar-se irresistível dançando a valsa; e põe monóculo, e faz versos, ou arranja quem lhos faça. E ambos, depois de bem enfrascados em perfume, depois de bem adornados e convertidos no que não são, esforçam-se, cada qual com mais empenho, em esconder aos olhos do outro os seus defeitozinhos e as suas pequenas misérias de entes civilizados.
Ela, coitada! para de si dar cópia de um ser poético e vaporoso, recita poesias sentimentais ao piano, fala de coisas românticas que pescou de relha, levando a comédia ao ponto de não querer à mesa, se houver rapazes presentes, quase que tocar nos pratos; e suspira, e requebra os olhos, e sibila os ss, e remexe-se toda, e toma langorosas posturas estudadas; e quando anda, e quando fala, e quando dança, e quando pousa na cadeira, é sempre com a mesma simulação e fazendo mil esgares de faceirice, mil trejeitos de ingenuidade e ao mesmo tempo de provocação amorosa.
Ele, bem barbeado, cheiroso, limpo e janota, afeta grande pureza de costumes e de maneiras, escolhe para a conversa assuntos finos e termos convenientes; faz-se terno, cordato, circunspecto, com um gênio de anjo; e fala do seu amor e do seu futuro conjugal, com tal doçura e tão voluptuosa virtude, que uma donzela ao ouvi-lo imagina logo que a vida, em companhia de semelhante puritano, há de ser uma nova edição, correta e aumentada, do paraíso, antes da gulodice da maçã.
E assim, mutuamente enganados, mutuamente iludidos e engodados — casam-se.
Essa ilusão servirá para a garantia do primeiro filho. Está muito bem! Mas ainda os dois falam entre si e com os amigos em “lua-de-mel”, e já cada um por sua conta começa a descobrir no companheiro imprevistas particularidades, reais e prosaicas, que vão surdamente desdourando o insubstituível prestígio poético que exerciam um sobre o outro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.