Por Aluísio Azevedo (1884)
- A mim nada interessa mais do que isto! - afirmou minha sogra.
- E a mim nada interessa absolutamente! - acrescentou o Castro, deixando-se cair em uma cadeira. - Dou-lhes a minha palavra de honra em como estou caindo de fome. Juro que um pedaço de carne assada não me faria agora mal de espécie alguma, mas...
- Mas... - ajudei eu, verdadeiramente intrigado.
- Mas o quê, Sr. Castro?
- Mas... É verdade! Mas o quê?... Para lhes falar com franqueza, já não me lembro do que dizia...
- Lembro-me eu - observei, reunindo na memória os fragmentos esparsos da conversa. - Lembro-me eu... O senhor dizia que...
- Nada! Não! - atalhou Castro. - Não me lembre nada! Deixemo-nos disso! Para que diabo havemos de lembrarmo-nos de coisas que não nos interessam, isto é, que não interessam ao senhor, porque a mim nada, absolutamente nada, me interessa! ...
- Isso já o senhor repetiu mais de vinte vezes!
O maluco ia dar-me réplica, mas teve de sustê-la com a chegada de alguém, que acabava de entrar.
Todos nós três voltamo-nos para o novo personagem.
Era o Sr. Quintino, compadre de minha sogra.
- Ah! É o senhor, compadrinho? — gritou esta. - Que boa surpresa!
- É verdade - respondeu o redator dO Paiz, dirigindo-se mais ao gesto de curiosidade que eu fazia do que mesmo às palavras de Dona Leonarda. - É verdade! Sou eu, que, descobrindo o grande equivoco em que navegam os senhores todos, apressei-me a vir desvendá-lo!
- Como?! - pinchou a velha. - Como, seu compadre?
- Quer dizer - continuou o famoso jornalista. - Quer dizer que a senhora e este senhor seu genro, se me não engano, têm sido vítimas de uma enorme trapalhada.
- Não compreendo! - afiancei.
- Nem eu! - reforçou a velha.
- Explicar-me-ei! - tornou o Sr. Quintino. - Explicar-me-ei!
- Pois então veja se anda com isso! - disse Dona Leonarda, dominada por grande aflição. - Veja se anda com isso, porque dou-lhe a minha palavra de honra que já estou farta de toda esta porcariada de Castros Mattas e Maltas, e já não me sinto disposta a aturar mais semelhante mexericada! Arre! Arre! Que até fede! Até fede esta questão!
- Bom! bom! - cortou o jornalista. - Não vale a pena arreliar-se por tão pouco, minha senhora. A minha visita a esta casa não teve por fim dar incômodos, mas pura e simplesmente esclarecer o engano que havia. - Pois esclareça por uma vez! - bradou a velha.
- O Castro Malta de que fala a senhora - explicou Quintino -, assim como o Castro de que fala o senhor seu genro, nada têm de comum com o Castro Malta de que fala o jornal de que sou redator-em-chefe!
- Como assim?
- Quer dizer que nenhum desses dous Castros é o meu, nenhum desses é aquele que O
Paiz procurou descobrir! Pelos documentos, que me acaba de fornecer a Santa Casa de
Misericórdia e pelos dados obtidos pelo senhor promotor público, sabe-se que o Castro Malta, recrutado, o Castro Malta recolhido ao hospital, o Castro Malta falecido, enterrado e não encontrado no cemitério, nada tem de comum com as pessoas de que me falaram vossemecês!
- Ora essa! - resmungou minha sogra. - Ora essa! Mas em todo caso, não tenho outro remédio senão acreditar nas suas palavras, porque o Castro de que me fala o Sr. Quintino é um Castro morto, ao passo que o Castro, de que eu falava, o meu rico Malta, está mais vivo do que um azougue!
- Bem! - retorqui. - Mas tudo isso não me esclarece no ponto em que eu desejo ser esclarecido! Para mim, tanto se me dá que o Castro Malta fosse assassinado na Polícia, como se morresse tranqüilamente sobre sua cama, ao lado de sua mulher e de seus filhos; o que me interessa, o que me preocupa, é descobrir quem é e onde paira o Castro Malta que seduziu minha mulher.
- Por esse respondo eu! - atalhou a velha.
- Então responda! - disse, avançando sobre ela.
- Ei-lo! – exclamou a velha apontando para o meu hóspede que dormia já a sono solto estirado na cadeira.
- Este?! - perguntei pasmo. - Não! É impossível! Não creio.- Pois então, ouça e verá!
XV
A velha endireitou os óculos, fungou três vezes, repuxou as saias nos rins e disse, apontando para o ressuscitado:
- Eis o autor da questão!
- Este? - bradei, espantado. - É impossível!
- Vai ver - replicou a velha -, vai ver!
- Não creio - repliquei. - É impossível, repito!
- Impossível o quê? - perguntou-me o acusado.
- Impossível que seja o senhor o autor da grande intriga que se tem feito a respeito de Castro Malta, de mim e de todas as pessoas que se interessam nesta questão.
- Que questão? - perguntou-me o Castro.
- Ora! que diabo de questão pode ser? A questão Castro Malta.
- Castro Malta?
- Pois o senhor não conhece a questão de que lhe falo?
- Eu não conheço senão o que me ensinou o Precioso, o meu mestre.
- Visto isso – acrescentei -, o senhor não está a par da grande questão que nos trouxe aqui!
- Juro-lhe que não.
- Não sabe do que se trata?
- Não!
- Nunca escreveu cartas a minha mulher?
- Nem a sua, nem a mulher alguma!
- Então - exclamei, voltando-me para Dona Leonarda -, então como afiançou a senhora que este homem era o autor de toda aquela trapalhada?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.