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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Ele, porém, em vez de sucumbir, redobrava de coragem. Procurou afinar os seus gostos pelos dela; fazia-se triste, propenso às melancolias e aos êxtases; apertava muito a roupa ao corpo para figurar mais magro: fingia-se poeta — roubava os versos dos almanaques, torcendo-lhes os nomes e às vezes o sentido, versos que ele copiava pacientemente durante a madrugada e que deixava, como esquecidos, no seu escritório, sobre a pasta, molhados de pingos d'água, que representavam lágrimas arrancadas do coração. Outras vezes. quando a via de bom humor, fazia-se muito estouvado, cheio de rapaziadas, risonho, com fumaças de estroinice fidalga.

— Creio que agora se decide o negócio!... pensava ele esfregando as mãos — desta vez parece que vai.

Efetivamente, se tudo isso não conseguia logo a abolição do tal ferrolho, não deixava, entretanto, de modificar as reservas de Filomena e de fazê-la mais dócil e mais chegada ao esposo. Mostrava-se agora muito agradecida às finezas que dele recebia; mostrava-se amável e prometedora; ao jantar, tocavam os pés por debaixo da mesa; tinham apertos de mão ligeiros e assustados, beijinhos furtados e longos idílios ao luar, nos bancos do jardim ou debruçados no balcão da mesma janela.

— A bordo é que eu te quero pilhar!... dizia o Borges de si para si, mentalizando planos de ataque. — A bordo é que serão elas!

E tratou de realizar a viagem. A casa ficaria entregue aos criados.

Dias depois embarcavam num paquete francês, que seguia para Lisboa.

— Ora até que afinal!... considerou ele, quando viu a mulher já instalada no beliche. — Ora até que afinal estou livre do maldito...

E, de fato, pelo seu ar condescendente, por sua linguagem doce e pelas maneiras de tratar agora o esposo, Filomena parecia muito pouco disposta a morrer de saudades pelo ferrolho.

Mal, porém, começou a caminhar o paquete, que um terrível enjôo apoderou-se do pobre marido apaixonado e o prostrou no fundo de seu beliche, inútil e arquejante.

Filomena não lhe perdoou semelhante coisa. Enjoar!... enjoar em sua companhia! Oh! o Borges acabava de perder todo o prestígio que ultimamente havia conquistado!

— Mas não é culpa minha! lembrou ele, sem ânimo para erguer a cabeça.

— Reagisse! Tivesse mais domínio sobre si! Os espíritos fortes governam a matéria! Enjoar! Oh! Shocking!

E só acalmou um pouco a sua indignação, lembrando-se de que D. Juan, de Byron, enjoara também na primeira viagem que empreendeu. Todavia, em Lisboa, foram ocupar aposentos separados no Hotel de Bragança.

Apenas se demorariam o tempo necessário para tratar do título e seguiriam logo caminho de Espanha, porque Filomena declarou que aquela cidade lhe fazia mal aos nervos.

Todo o seu ideal era a Itália; sonhava-a através das descrições que lhe depararam centenas de romances. Queria Nápoles, com o clássico Vesúvio em plena erupção, o seu golfo lendário, o seu famoso céu azul, estrelado de pombos.

Exigia Veneza. Veneza com todos os seus acessórios pitorescos — as suas serenatas em gôndola, o seu palácio dos Doges, os seus romances debaixo de velhas e melancólicas abóbadas, consagradas pelos séculos. Reclamava excursões ao Lido, às ilhas decantadas da Laguna, a S. Lázaro dos Armênios, a Murano, a Torcelo. Queria saturar-se bem da "filha gentil do Adriático", mergulhar nas sombras azuis de seus canais, onde rebrilham de espaço a espaço as competentes lanternas dos gondoleiros; não morreria sem passar algumas horas de concentração mística e deliciosa sob a melancólica ponte dos Suspiros. — Oh! a ponte dos Suspiros!

Depois, Gênova, "cidade de mármore!", com a sua acumulação de palácios célebres, seus jardins silenciosos, suas colinas fortificadas! — Oh! a Itália, a Itália era então toda a sua ambição, todo o seu viver!

E deixaram-se os dois seguir o itinerário comum das viagens à Europa. Atravessaram a Espanha, a ruidosa França, percorreram a Suíça, "a livre Helvécia", como poeticamente a classificou Filomena, e, afinal, depois de uma semana de Mônaco, onde ela teve a fantasia de ver o marido perder dinheiro ao jogo, acharamse em caminho de Nice, da qual, mediante nove horas de mar, passaram-se a Gênova.

Chegaram às oito da manhã, quando um sol esplêndido punha em relevo as magnificências da cidade de mármore. Filomena, porém, estava sequiosa de Nápoles e, como seu vaporzinho seguia para aí, mal deu um passeio em terra, tornou a embarcar com o esposo.

— Oh! Nápoles! Nápoles, dizia ela, entusiasmada, ao chegar à famosa cidade. Como desejava eu viver e morrer sob o teu sol dourado, passando os dias e as noites a contemplar o teu céu azul, o teu golfo da cor do teu céu!... E ter perto de mim, ao alcance de meus olhos, Capri, Ischia e o Vesúvio, e essa extensa costa, que vai de Portici a Castellamare e aos belos penhascos de Sorrento! Ó Nápoles!

O Borges escutava essas e outras declamações com um profundo silencio de respeito. — Sim senhor! Não fazia a mulher tão entendida em geografia!... pensava ele, ensoberbecendo-se.

(continua...)

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