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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“8ª Que este esqueleto devia pertencer a um indivíduo cuja estatura aproximada e provável deve ser avaliada em lm.74l, por isso que o osso tíbia tinha 0,36c.

“9ª Que esse indivíduo seria de um corpo regular, pois a clavícula encontrada tinha 0.14c., o que inculca que o peito na sua parte superior, de um extremo clavicular a outro, ofereceria mais ou menos 0,32c. Por outra, que era um indivíduo de tipo português e de estatura regular.

“10ª Que os ossos pertencentes a este esqueleto, despidos tanto quanto foi possível da terra argilosa que lhes era aderente, pesaram 7 libras e 5 onças ou 117 onças; a saber: os ossos que por muito quebrados não foram classificados e os detritos purulentos, 56 onças. Ossos classificados, 61 onças.

“11ª Que os ossos reunidos pertencentes aos dois esqueletos encontrados no primeiro jazigo pesam 128 onças.

“12ª Que, finalmente, as peças ósseas encontradas no segundo jazigo, e que fizeram o mais particular assunto dos nossos estudos e análise, estiveram indubitavelmente inumadas por um imenso período durante séculos, pelo menos dois, pois que séculos são necessários para reduzir os ossos humanos às condições em que foram encontrados os restos que, com todo o fundamento, se julga pertencerem a Estácio de Sá.

“E para que conste a todo o tempo se lavrou o presente auto, que é assinado por S. M. o Imperador e por todas as pessoas acima designadas – D. Pedro II, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, Augusto Duque-Estrada Meyer, Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, Frei Caetano de Messina, Visconde de Sapucaí, Dr. Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, Carlos Honório de Figueiredo, Antônio Alves Pereira Coruja, Antônio Manuel de Melo, Manuel Ferreira Lagos, Felizardo Pinheiro de Campos, A. D. de Pascoal.”

No fim desta transcrição veio-me à lembrança que um homem sério, um desses altivos e carrancudos senhores que torcem o nariz a tudo quanto lhe cheira a poesia, achou poesia, id est, extravagância e falta de juízo na exumação dos restos de Estácio de Sá, e nas subseqüentes honras que foram prestadas à memória do assinalado varão, e olhando-me um pouco de revés, teve a complacência de dirigir-me a palavra perguntando:

– Para que serve isso?

Isso é um adjetivo que, pronunciado com certa contração dos lábios, exprime o profundo desprezo que sente quem o pronuncia.

Confesso a minha vergonha. Não pude responder ao homem sério, porque receei perder o restinho de confiança que lhe merecia. Mas, pensando comigo mesmo nos tributos de gratidão que se devem pagar aos varões prestantes que floresceram no passado; pensando que as honras prestadas aos beneméritos que já não vivem são incentivos que excitam à prática de virtudes; pensando que a história do passado é um tesouro que só os brutos desprezam, pus-me a avivar na memória os feitos de Estácio de Sá. E, idéia desperta idéia, lembrança chama lembrança, recordei-me de um fato do tempo desse distinto capitão, fato que bem pudera ser aproveitado para a instituição de uma festa muito popular e muito útil, e que, sem a menor dúvida, teria o seu encanto pelas recordações que despertaria.

As regatas de Veneza, sem dúvida muito famosas pelo número, riqueza e velocidade das gôndolas que tomavam nelas parte, e pela pompa com que se celebrava essa festa nacional, não eram menos pela sua origem romanesca. Ninguém ignora que os venezianos comemoravam com as regatas a libertação das noivas venezianas que atrevidos piratas haviam raptado.

Pois bem. Nós temos igualmente uma origem histórica e romanesca para a instituição de regatas no Rio de Janeiro, e nesse ponto não nos levará vantagem a antiga rainha do Adriático. Mais ainda. Nos tempos primitivos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, celebrava-se anual e regularmente uma solenidade que então tinha o nome de Festa das Canoas.

Para que algum incrédulo não pense e diga que estou improvisando, declaro alto e bom som que tenho por mim os valiosos testemunhos de dois veneráveis escritores, um que é o bom Santa Maria no seu Ano Histórico, tomo II, § 3º, pág. 397, e outro que é o maçantíssimo Simão de Vasconcelos na sua Crônica da Companhia de Jesus, livro III, § 96, págs. 352 e seguintes.

(continua...)

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