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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“Depositou-se depois o auto no vão formado pelas pedras de cantaria. O Sr. A. A. Pereira Coruja apresentou as gazetas publicadas no dia e as seguintes moedas, que foram colocadas no mesmo lugar: 1 de 20$ e 1 de l0$ do ano de 1861, e 1 de 5$, de 1855, todas de ouro; 1 de 2$, de 1857, 1 de 1$, 1 de 500 rs. e 1 de 200 rs., de 1862, todas de prata. Frei Caetano de Messina ofereceu uma medalha de ouro sobre o dogma da imaculada Conceição da Santa Viagem com a efígie de Pio IX e outra de prata com as imagens de N. S. da Conceição e S. Francisco de Assis, as quais tiveram o mesmo destino e foram postas sobre o auto.

“Metida a urna no vão de cantaria, foi este hermeticamente fechado com uma lápide de mármore, tomada com cimento, contendo em letras indeléveis e douradas a seguinte inscrição:

Restos mortais de Estácio de Sá, exumados desta sepultura

em 16 de novembro de 1862, a ela restituídos em 20 de janeiro de 1863.

“A pesada lápide da antiga campa rolou então sobre o pavimento e ajustou-se sobre o carneiro. Eram 2¼ horas da tarde.

“S. M. o Imperador deu a cerimônia por concluída e retirou-se, descendo a ladeira da Ajuda, acompanhado de quase todas as pessoas que assistiram a este ato de tão grande acatamento e respeito pago ao fundador da capital do império.

“Aqui transcrevemos o auto da exumação dos ossos de que acima falamos.

“Aos 16 dias do mês de novembro do ano de 1862, nesta cidade do Rio de Janeiro, e na igreja de S. Sebastião do morro do Castelo, antiga Sé da cidade velha, achando-se presentes S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II, acompanhado de seus semanários gentil-homem da imperial câmara, Augusto Duque-Estrada Meyer e guarda-roupa Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, o prefeito dos missionários capuchinhos que ao presente ocupam a mesma igreja, frei Caetano de Messina, e mais missionários e os membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, visconde de Sapucaí, presidente Dr. Joaquim Manuel de Macedo, 2º vice-presidente, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, 3º dito, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, 2º secretário, bacharel Carlos Honório de Figueiredo, secretário adjunto, Antônio Álvares Pereira Coruja, tesoureiro, e os sócios conselheiros Antônio Manuel de Melo, comendador Manuel Ferreira Lagos, bacharel Felizardo Pinheiro de Campos e A. D. de Pascoal, e grande número de pessoas gradas, se dirigiram ao meio-dia ao presbitério da capela-mor da mesma igreja, onde junto aos degraus do altar se achavam sepultados os ossos de Estácio de Sá, primeiro governador e povoador do Rio de Janeiro, para proceder à sua exumação, visto ter entrado a igreja em conserto e ser necessário elevar o pavimento da mesma, a fim de que a todo o tempo conste o respeito e veneração que mereceu a conservação dos restos do fundador da capital do império, que na sua conquista adquiriu a glória do martírio pela coragem e afouteza com que barateou a vida nas batalhas de Uruçumirim e Paranapuca, que foram ganhas aos tamoios e aos franceses seus aliados.

“E, sendo ordenada a exumação por S. M. o Imperador, procedeu-se à remoção de uma lápide de granito do país, lavrada, mas não polida, de nove palmos de comprido, quatro de largo e um de espessura, que se achava rente com o solo e tinha gravado na face exterior o seguinte epitáfio, em letras capitais de caráter latino, sendo o algarismo em caracteres arábicos:

Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo, segundo capitão e governador, com as suas armas. E esta capela acabou no ano de 1583.

“Por baixo desta inscrição viam-se as armas de sua casa.

“E removida a lápide, com facilidade conheceu-se então que não havia depósito algum, como era de presumir, por isso que, sendo o corpo de Estácio de Sá sepultado em Vila Velha, povoação e fortaleza por ele fundadas nas imediações do Pão de Açúcar, só dezesseis anos depois é que seus ossos foram removidos para a nova povoação do morro do Castelo, traçada por Salvador Correia de Sá, que a firmou com o marco da conquista, que ainda existe à porta principal do templo, e que daí a um século se ficou chamando Cidade Velha, para distinção da novíssima povoação que se estendeu pelos vales de S. Bento, da Misericórdia e Ajuda, e ainda da primitiva, conhecida por Vila Velha. Assim pois, era uma sepultura rasa sobre o solo artificial da igreja, o qual foi cavado cuidadosamente na extensão de dez palmos sobre cinco de largo e cinco de profundidade.

(continua...)

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