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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, enquanto sorvia compassadamente o café, recapitulava na memória todo o seu passado de terror e submissão: — Antes de entrar para a escola de primeiras letras, nunca lhe deixaram transpor a porta da rua ou a porta do quintal; os outros meninos de sua idade tinham licença para empinar papagaios, brincar entrudo, queimar fogos pelo tempo de São Pedro; — ele não! depois caiu nas garras do professor, — aquela fera! Nunca saia de casa, sem levar atrás de si um escravo para o vigiar, para impedi-lo de fazer travessuras e obrigá-lo a caminhar com modo, direito, sério como homem. Afinal escapou ao professor, sim! mas continuou sob a dura vigilância do pai, do tio e das tias; todos rondavam; todos o traziam “num cortado”. Só na fazenda da avó conseguia desfrutar alguma liberdade, mas essa mesma não era completa e, ai! durava tão pouco tempo!...

Agora compreendia a razão pela qual, no mês de férias que passava aí, se tornava tão maligno, — é que naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava coagido em casado pai. De sua infância eram aqueles meses privilegiados a coisa única que lhe merecia verdadeira saudade; ao mais estrangulavam tristes reminiscências de castigos, de sustos, apoquentações de todo o gênero.

A própria idéias de sua mãe nunca lhe vinha só; havia sempre ao lado da venerada imagem alguma recordação enfadonha e constrangedora. — As poucas vezes em que estavam juntos, o pai chegava no melhor da intimidade e Ângela se retraía, cortando em meio as carícias do filho, como se as recebera de um amante, em plena ilegalidade do adultério.

E a memória desses beijos a furto e medrosos, a memória desses carinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe as vezes que ele em pequeno se metia no quarto dos engomados, de camaradagem com as mulatas da casa que aí trabalhavam conjuntamente.

Era quase sempre pelo intervalo das aulas, ao meio-dia, quando o calor quebrava o corpo e punha nos sentidos uma pasmaceira voluptuosa.

Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da província, grande número de criadas; só no “quarto da goma”, como lá se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas costuravam; outras faziam renda, assentadas no chão, defronte da almofadas de bilros; outras, vergadas sobre a “tábua de engomar”, passavam roupa a ferro.

Amâncio ,quando criança, gostava de se meter com elas, participar de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar correr o tempo, deitado sobre saias, amolentando-se ao calor penetrante das raparigas, a ouvir, num êxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com risadinhas estaladas à socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em tê-lo perto de si, achavam-no vivo e atilado, provocavam-lhe ditos de graça, mexiam com ele, faziam-lhe perguntas maliciosas, só para “ ver o que o demônio do menino respondia” .E, logo que Amâncio dava a réplica, piscando os olhos e mostrando a ponta da língua, caíam todas num ataque de riso , a olharem umas para as outras com intenção.

De resto, ninguém melhor do que ele para subtrair da despensa um punhado de açúcar ou de farinha, sem que Ângela desse por isso.

— O demoninho era levado!

E assim se foi tornando mulherengo, fraldeiro, amigo de saias.

A mãe, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava jogo pelo filho.

— Já vou mamãe! respondia Amâncio.

Lá estava o diabrete do menino às voltas com as raparigas no quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!...

Mas Amâncio não se corrigia. É que ali ao menos não chegaria o pai.

As vezes ,quando ia passear à casa de alguma família conhecida, arranjavase com as moças, gostava de acompanha-las por toda parte, fazendo-se muito dócil e amigo de servir. Como era ainda perfeitamente criança e bonitinho, elas lhe faziam festa e davam-lhe doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias. Algumas lhe perguntavam brincando se ele as queria para mulher, se queria “ser seu noivo”. Amâncio respondia que sim com um arrepio. E daí a pouco ficavam as moças muito surpreendidas quando o demônio do menino lhes saltava ao colo e principiava a beijar-lhes sofregamente o pescoço e os cabelos ou a meter-lhes a língua pelos ouvidos.

— Credo! disse uma delas em situação idêntica..— Que menino! Vá para longe com as suas brincadeiras.!

Outras, porém, lhe achavam muita graça e eram as primeira s a puxar por ele.

De todos os brinquedos o que Amâncio mais estimava era o de “fazer casa”. A casa fazia-se sempre debaixo de uma mesa, com um lençol em volta, figurando as paredes. Uma de suas primas, filha do protetor de Campos, ou alguma menina que estivesse passando o dia com ele, representava de mulher; Amâncio de marido. A menina ficava debaixo da mesa, enquanto ele andava por fora, “a ganhar a vida ” até que se recolhia também a casa, levando compras e preparos para o almoço. Amarravam um lenço em duas pernas da mesa, fingindo rede, e aí metiam uma boneca, que era o filho.

(continua...)

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