Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

A causa de tal demora foi que, exatamente nesta mesma noite, às nove horas, tremendo furacão se desencadeou sobre o acampamento. Torrentes de chuva transformaram logo o solo em lamacento pantanal. Não são raros no Paraguai estes terríveis fenômenos; jamais viramos, porém, coisa igual. Os relâmpagos que continuamente se cruzavam, os raios que por todos os lados caiam; o vendaval a arrebatar tendas e barracas, formaram um caos a cujo horror se uniam, de tempos a tempos, os disparos de nossas sentinelas contra os diabólicos inimigos que, apesar de tudo, não cessavam de aferretoar-nos: interminável noite em que para nós tudo representava a imagem da destruição. A mercê de todas as cóleras da natureza, sem abrigo nem refúgio, quase nus, escorrendo água, mergulhados até a cinta em correntezas capazes de nos arrebatar, ainda precisavam os nossos soldados preocupar-se em subtrair da umidade os cartuchos. Veio a manhã encontrar-nos em tal situação. Dois dias mais tarde, contudo, antes dos primeiros albores, e apesar de se haver renovado a tormenta daquela noite, puseram-se em movimento os dois corpos designados.

Era o comandante do 21.° um major em comissão, por nome José Tomás Gonçalves, homem resoluto e audaz, além de tudo popular, tanto pelo mérito como pela estima que facilmente conquista uma fisionomia aberta e simpática. Haveremos de vê-lo à testa da nossa expedição, após a morte do coronel Camisão, guiando-a ao termo desejado.

Gozava o comandante do corpo de caçadores, capitão Pedro José Rufino, de grande reputação de bravura e atividade. Se alguma coisa devêssemos recear, era o excesso de ardor por parte de ambos, a comprometer a empresa; e assim deitar a perder toda a coluna. Foi, pelo contrário, a reunião de tais qualidades que facilitou o êxito de uma combinação a que o comandante, com razão, ligara o maior apreço.

Ignorávamos com que forças iam eles medir-se. Fornece o Paraguai menos espiões ainda do que guias; e por falta de cavalos não pudéramos efetuar reconhecimentos.

Nada viramos ou ouvíramos, ruído, poeira ou fumaça, que nos permitisse presumir da chegada de reforços inimigos. Nós lhes reconhecíamos, contudo, a habilidade em encobrir os movimentos consideráveis de tropas. Assim, pois, deu o coronel ordens para que os oficiais, comandando a coluna de ataque, só entrassem em fogo quando o corpo de voluntários estivesse em condições de os sustentar. À hora aprazada, destacou este corpo com uma das peças de nosso parque em direção ao acampamento inimigo.

Neste entrementes, após grande rodeio, e a travessia de uma légua de banhado, chegara a tropa do major Gonçalves ás posições dos paraguaios. Era noite ainda, uma hora antes do nascer do Sol; e tudo se fizera no maior silêncio. Verificou-se, então, que a bateria inimiga fora ali assestada para defender a passagem do fosso. Na posição que lhe fora marcada, teria José Tomás Gonçalves, desde o romper da alva, de sofrer o fogo do inimigo. Assim, pois, compreendendo que não havia um momento a perder, mandou calar baionetas sobre os canhões; investida favorecida pela negligência do inimigo. E, realmente, de toda a cavalaria acumulada por trás do entrincheiramento não havia uma só patrulha para a guarda das peças.

A toque-toque chegou nossa infantaria sobre os canhões, sem deixar tempo aos seus animais de tiro de no-los subtrair. Forçou-se num ápice a entrada do acampamento, mal defendido contra a impetuosidade desta surpresa, havendo o capitão José Rufino e os seus caçadores também entrado em ação. Penetraram todos de roldão no recinto, levando e derribando quanto pela frente encontravam, no acanhado recinto em que oficiais e soldados, homens e cavalos, mutuamente se embaraçavam, tratando muito menos de resistir do que de escapar para o campo.

Tudo o que não foi morto ou ferido, salvou-se pela fuga.

Estas boas noticias, trazidas por um próprio, encontraram-nos no alto de um cômodo que domina a planície e para onde se encaminhara o comandante, com o seu estado-maior, a fim de poder fazer entrar em fogo toda a sua gente, se assim se tornasse necessário.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1819202122...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →