Por José de Alencar (1875)
No outro dia, depois de uma insônia atribulada, Fernando recapitulando as contrariedades com que o recebera a sua corte predileta, depois de uma ausência prolongada, chegou a esta dolorosa conclusão: que estava arruinado. Pobre, desacreditado, reduzido ã vida de expedientes, com a sua carreira cortada, que futuro era o seu? Não lhe restava senão resignar-se à vegetação de emprego público com a ridícula esperança de alforria lá para os cinqüenta anos, sob a forma de mesquinha aposentadoria.
Esta perspectiva o horrorizava. Entretanto sua posição nada tinha de assustadora. Com um pouco de resolução para confessar à mãe as suas faltas, e algumas perseveranças em repará-las, podia ao cabo de dois anos de uma vida modesta e poupada restabelecer a antiga abastança.
Mas esta coragem é que não tinha Seixas. Deixar de freqüentar a sociedade; não fazer figura entre a gente do tom; não Ter mais por alfaiate o Raunier, por sapateiro o Campas, por camiseira a Cretten, por perfumista o Bernardo? Não ser de todos os divertimentos? Não andar no rigor da moda?
Eis o que ele não concebia. Sentia-se com ânimo para matar-se, mas para tal degradação reconhecia-se pusilânime.
Este pânico da pobreza apoderou-se de Seixas, e depois de trabalhá-lo o dia inteiro, levou-o na manhã seguinte à casa de Lemos, onde efetuou-se a transação, que ele próprio havia qualificado, não pensando que tão cedo havia de tornar-se réu dessa indignidade.
A uma justiça, porém, tem ele direito. Se previsse os transes por que ia durante a realização do mercado, e especialmente no ato de assinar o recibo, talvez se arrependesse.
Mas arrastado de concessão em concessão, a dignidade abatida já não podia reagir.
Três dias depois daquele em que recebera os vinte mil cruzeiros, achou Seixas ao recolher-se um recado do tal Ramos nestes termos:
"Prepare-se, que amanhã às 7 da noite vou buscá-lo para a apresentação."
No dia seguinte, à hora marcada, com pontualidade mercantil, parava à porta do sobradinho da rua do Hospício um carro, no qual poucos momentos depois seguia o Lemos a caminho das Laranjeiras com o noivo que ele havia negociado para sua pupila.
Durante rápido trajeto, o velho divertiu-se em meter sustos no rapaz acerca da noiva, a quem sorrateiramente ia emprestando certos senões, a pretexto de os desculpar. Ora dava a entender que a moça tinha um olho de vidro; ora inculcava que era uma perfeita roceira, a qual o marido devia depois do casamento mandar para o colégio.
Tão depressa intentava o negociante suas pilhérias, como as destruía com o comando repique de riso, batendo três palmadinhas na perna de seu companheiro.
- Ficou passado, hein, managão!... Qual roceira! Esteja descansado! Não precisa de colégio; se ela já é uma academia! Tome meu conselho; trate de estudar, senão o senhor faz má figura! Eh! Eh! Eh!...
Seixas não prestava atenção às fecécias do velho, seu espírito estava nesse momento oprimido pela dolorosa convicção que tinha, do abatimento e vergonha de sua posição.
Agora sobretudo, ao começar a realização do mercado que ele havia feito de sua pessoa, quando ia encontrar-se com a mulher a quem se alienara sem a conhecer, e em troca de um dote; agora é que toda a humilhação desse procedimento se lhe desenhava com as cores mais carregadas.
O carro acabava de parar. O velhinho saltando ágil e lépido bateu no chão com os pés a fim de consertar as calças que haviam subido pelos canos das botas.
Escuso prevení-lo, observou Lemos, de que a pequena nada sabe, nem suspeita. Por enquanto não dê a perceber.
X
O portão ficava a uns trinta passos da casa que se erguia no centro de vasto jardim inglês.
Todas as janelas do primeiro pavimento estavam abertas e despejavam cortinas de luz, que tremulavam nas águas do tanque e na folhagem verde agitada pela brisa.
As visitas foram conduzidas pelo criado ao salão, onde apenas se achava D. Firmina Mascarenhas, e o Torquato Ribeiro, com quem o velho trocou algumas palavras no vão de uma janela, enquanto Seixas sentado junto ao sofá, aguardava o terrível momento.
Ouviu-se um frolido de sedas, e Aurélia assomou na porta do salão.
Trazia nessa noite um vestido de nobreza opala, que assentava-lhe admiravelmente, debuxando como uma luva o formoso busto. Com as rutilações da seda que ondeava o reflexo das luzes, tornavam-se ainda mais suaves as inflexões harmoniosas do talhe sedutor.
Como que banhava-se essa estátua voluptuosa, em um gás de leite e fragrância.
Seus opulentos cabelos colhidos na nuca por um diadema de opalas, borbotavam em cascatas sobre as alvas espáduas bombeadas, com uma elegante simplicidade e garbo original que a arte não pode dar, ainda que o imite, e que só a própria natureza incute.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.