Por José de Alencar (1857)
Cecília sentou-se num banco de relva; e a muito custo conseguiu tomar um arzinho de severidade, que de vez em quando quase traia-se por um sorriso teimoso que lhe queria fugir dos lábios.
Fitou um momento no índio os seus grandes olhos azuis com uma expressão de doce repreensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que de rigor:
— Estou muito zangada com Peri!
O semblante do selvagem anuviou-se.
— Tu, senhora, zangada com Peri! Por quê?
— Porque Peri é mau e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, vai caçar em risco de morrer! disse a moça ressentida.
— Ceci desejou ver uma onça viva!
— Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma coisa para que tu corras atrás dela como um louco?
— Quando Ceci acha bonita uma flor, Peri não vai buscar? perguntou o índio.
— Vai, sim.
— Quando Ceci ouve cantar o sofrer, Peri não o vai procurar?
— Que tem isso?
— Pois Ceci desejou ver uma onça, Peri a foi buscar.
Cecília não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse silogismo rude, a que a linguagem singela e concisa do índio dava uma certa poesia e originalidade.
Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Peri por causa do susto que lhe havia feito na véspera.
— Isto não é razão, continuou ela; porventura um animal feroz é a mesma coisa que um pássaro, e apanha-se como uma flor?
— Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
— Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem?...
E apontou para os brancos vapores que passavam ainda envolvidos nas sombras pálidas da noite.
— Peri ia buscar.
— A nuvem? perguntou a moça admirada.
— Sim, a nuvem.
Cecília pensou que o índio tinha perdido a cabeça; ele continuou:
— Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá-la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci.
Estas palavras foram ditas com a simplicidade com que fala o coração.
A menina que um momento duvidara da razão de Peri, compreendeu toda a sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.
A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairar nos seus lábios um sorriso divino.
— Obrigada, meu bom Peri! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.
— Senhora, não está mais zangada com Peri?
— Não; apesar de que devia estar; porque Peri ontem fez sua senhora afligir-se cuidando que ele ia morrer.
— E Ceci ficou triste? exclamou o índio.
— Ceci chorou! respondeu a menina com uma graciosa ingenuidade.
— Perdoa, senhora!
— Não só te perdôo, mas quero também fazer-te o meu presente.
Cecília correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia encomendado a Álvaro.
— Olha! Peri não desejava ter umas?
— Muito!
— Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança de Cecília, não é verdade?
— Oh! o sol deixará primeiro a Peri, do que Peri a elas.
— Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecília as deu para defenderem e salvarem a tua vida.
— Por que é tua, não é, senhora?
— Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.
O rosto de Peri irradiava com o sentimento de um gozo imenso, de uma felicidade infinita; meteu as pistolas na cinta de penas e ergueu a cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a unção de Deus.
Para ele essa menina, esse anjo louro, de olhos azuis, representava a divindade na terra; admirá-la, fazê-la sorrir, vê-la feliz, era o seu culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os tesouros de sentimentos e poesia que transbordavam dessa natureza virgem.
Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e o seu rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lágrimas ardentes que escaldam o seio e requeimam as faces.
A moça e o índio nem se olharam; odiavam-se mutuamente; era uma antipatia que começara desde o momento em que se viram, e que cada dia aumentava.
— Agora, Peri, Isabel e eu vamos ao banho.
— Peri te acompanha, senhora?
— Sim, mas com a condição de que Peri há de estar muito quieto e sossegado.
A razão por que Cecília impunha esta condição, só podia bem compreender quem tivesse assistido a uma das cenas que se passavam quando as duas moças iam banhar-se, o que sucedia quase sempre ao domingo.
Peri, com o seu arco, companheiro inseparável e arma terrível na sua mão destra, sentava-se longe, à beira do rio, numa das pontas mais altas do rochedo ou no galho de alguma árvore, e não deixava ninguém aproximar-se num raio de vinte passos do lagar onde as moças se banhavam.
Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse círculo que o índio traçava com o olhar em redor de si, Peri na posição sobranceira em que se colocara o percebia imediatamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.