Por José de Alencar (1857)
ALFREDO - Sim; e foi preciso ver seu nome escrito!... Quem diria que tanta inocência e tanta timidez eram o disfarce de uma alma pervertida! Meu Deus! Onde se encontrará nestes tempos a inocência, se no seio de uma família honesta ela murcha e não vinga!
PEDRO - Ora, Sr. Alfredo, tem tanta moça bonita! Pode escolher!
ALFREDO - Vai prevenir a Eduardo!
CENA XII
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - Ah! Ele está aí!...
HENRIQUETA - Não te disse? Já volto.
CARLOTINHA - Queres deixar-me só com ele! Não, eu te peço.
PEDRO (a ALFREDO) - Nhanhã! Como ela está alegre!
ALFREDO - É por ele! (Cumprimenta.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me fala! Que ar sério!
HENRIQUETA - É, talvez, por minha causa.
CARLOTINHA - Não, fica.
PEDRO (a CARLOTINHA) - Agora é que nhanhã deve ensiná-lo; e não fazer caso dele! (Sai.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me olha!
HENRIQUETA - Com efeito, ele tem alguma coisa que o mortifica.
CARLOTINHA - Se eu lhe falasse!...
HENRIQUETA - É verdade, dize-lhe uma palavra.
CARLOTINHA - Oh! Não tenho ânimo!
HENRIQUETA (a CARLOTINHA) - Espera, com ele eu sou mais animosa do que tu. Vou falarlhe.
CARLOTINHA - Mas não lhe digas nada a meu respeito.
HENRIQUETA - Não. Então, Sr. Alfredo, tem ido estas noites ao teatro?
ALFREDO - É verdade, minha senhora, para distrair-me.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Distrair-se... De pensar em mim!
HENRIQUETA - O teatro é mais divertido do que as nossas noites, aqui em casa de Carlotinha ou na minha. Não é verdade?
ALFREDO - Não, minha senhora, mas no teatro se está no meio de indiferentes, e, portanto, não há receio de que se incomode com a sua presença àquelas pessoas que se estima.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Com que ar diz ele isto! Tu compreendes?
HENRIQUETA - Mas, Sr. Alfredo, me parece que isto não se refere a nós, que nunca demos demonstrações...
ALFREDO - A senhora, não, D. Henriqueta.
CARLOTINHA - É a mim, então... (Silêncio de ALFREDO.)
HENRIQUETA - Mas explique-se, Sr. Alfredo; eu creio que há nisto algum equívoco.
ALFREDO - Há certas coisas que se sentem, D. Henriqueta, mas que não se dizem. Quando nos habituamos a venerar um objeto por muito tempo podemos odiá-lo um dia, porém o respeitamos sempre!
CARLOTINHA - Mas ninguém tem direito de condenar sem ouvir aqueles a quem acusa.
HENRIQUETA - Decerto; muitas vezes uma palavra mal interpretada...
EDUARDO - Tem certeza disso?
ALFREDO - Tenho convicção profunda.
EDUARDO - Pode ser uma convicção falsa.
ALFREDO - Não me obrigue a apresentar-lhe as provas.
EDUARDO - São essas provas que eu peço! Tenho direito a elas...
ALFREDO - Por quê? Não ofendem o caráter de D. Carlotinha.
EDUARDO - Mas revelam seus sentimentos, que eu devo conhecer como seu irmão.
CENA XIV
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - E que eu exijo que se patenteiem, porque não me envergonham, Eduardo!
EDUARDO - Tu nos ouvias, Carlotinha!
CARLOTINHA - Sim, mano. Tratava-se de mim; fiz mal?
EDUARDO - Não, minha irmã, eu mesmo te chamaria se não quisesse poupar-te um pequeno desgosto. Mas já que aqui estás, fica. Alfredo parece que tem algumas queixas de nós; julgarás se ele é injusto.
HENRIQUETA (à meia voz, a EDUARDO) - Ele está iludido! Carlotinha o ama!
EDUARDO - Eu sabia! (Continuam a conversar.)
CARLOTINHA - O Sr. Alfredo diz que tem provas de que amo outro homem... Reclamo essas provas.
ALFREDO - Não é possível, D. Carlotinha! Na minha boca seriam uma exprobração ridícula e ofensiva. Guardo-as comigo e respeito os sentimentos que não soube inspirar.
CARLOTINHA - O senhor não mas quer dar?... Pois bem, serei eu que provarei o contrário!... Eis a prova... (Estendendo-lhe a mão.)
ALFREDO - Ah!... (Tomando a mão.) Mas essa mão não pode ser minha!
CARLOTINHA - Por quê?
ALFREDO - Porque escreveu a outro e lhe pertence!
CARLOTINHA - Meu Deus! Mano, Henriqueta!...
EDUARDO - Que tens?
CARLOTINHA - Ele diz que eu amo a outro, que lhe escrevi!... Quando a ele...
ALFREDO - Não devia dizê-lo; mas foi o amor ofendido, e não a razão, que falou.
EDUARDO - Sei que é incapaz de tornar-se eco de uma calúnia; para dizer o que acabo de ouvir é preciso que tenha certeza do que afirma. A quem escreveu minha irmã, Alfredo?
ALFREDO - Perdão!... Não devo!
EDUARDO - Exijo!...
ALFREDO - Ao Sr. Azevedo!
HENRIQUETA - E impossível!
CARLOTINHA - Ele acredita!
EDUARDO - O senhor viu essa carta?
ALFREDO - Vi essa carta sair da mão que a escreveu e ser entregue àquele a quem era destinada! (Rumor de passos.)
EDUARDO - Silêncio senhor!
CENA XV
Os mesmos, AZEVEDO
AZEVEDO (a EDUARDO) - Cher ami! (A meia voz) Acabo de ter uma cena bastante animada, échauffante mesmo!
EDUARDO - Por que motivo?
AZEVEDO - Eu lhe digo. (Afastam-se.) Rompi o meu casamento com Henriqueta; e acabo de participá-lo ao Sr. Vasconcelos.
EDUARDO - Ah!... E que razão teve para proceder assim?
AZEVEDO - Muitas; seria longo enumerá-las. Aquele velho é um miserável e sua filha uma namoradeira!...
EDUARDO - Sr. Azevedo, esquece que fala de amigos de nossa casa.
AZEVEDO - Perdão, mas não podia deixar que esses dois especuladores abusassem por mais tempo da minha boa fé.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.