Por José de Alencar (1864)
Assim era o pudor de Emília.
Olhos puros e castos podiam espreguiçar-se docemente por sua beleza, porque uma serena candidez a aveludava então. Ao mais leve rubor porém a alma de quem a contemplasse magoava-se na aspereza daquela formosura, tão suave há pouco.
Não era preciso que Emília dissesse uma palavra ou fizesse um gesto para recalcar no intimo o pensamento ousado que mal despontara. Uma dor intima acusava-me de a ter ofendido, antes que eu tivesse a consciência disso.
Nunca se adorou de longe, na pureza do coração, com respeito profundo e um severo recato, como eu adorava Emília nas horas que tantas vezes passamos a sós, perdidos naquela solidão, onde não encontrávamos criatura humana.
Avalia do excessivo melindre de Emília por dous fatos que te vou contar.
Um dia, repetindo esse passeio da montanha, ela quis atravessar o leito empedrado de um córrego que se precipitava pela frágoa escarpada. Seu pé resvalou; ela ia espedaçar-se. Estendi os braços para ampará-la. Repeliu-me com violência, exclamando irada:
—Deixe-me morrer, mas não me toque! Outra vez, uma noite de partida, eu dava-lhe o braço. Numa volta, a minha manga, inadvertidamente, mal roçou-lhe o marmóreo contorno do seio. Ouvi como um débil queixume, que exalaram seus lábios. Voltei-me. Estava hirta e lívida, presa de uma rápida vertigem.
Aniquilou-me com um olhar de Diana; retirou o braço; deixou-me imóvel e pasmo no meio da sala. Uma semana não me quis falar. Quando afinal obtive o meu perdão, ainda me lembro do modo estranho por que me recebeu:
—É a segunda vez que lhe tenho ódio! Soltando essa palavra, seu lábio túmido parecia sugar dela um gozo ignoto. As róseas narinas titilaram, enquanto os olhos velando-se, afogavam num fluido luminoso.
Nessa mesma noite, como uma compensação do que a sua severidade me fizera sofrer, concedeu-me uma graça que eu nunca ousara esperar.
Dançava-se. Emília sofria como sempre a vertigem do baile, que era poderosa em sua organização.
Apesar da sutileza de beija-flor com que ela esvoaçava, não deixando as puras asas roçarem pelo mundo torpe, eu tinha ciúmes da graça que esparzia assim para todos. E sofria cruelmente, assistindo aos triunfos da sua beleza.
Ela percebeu, e veio a mim :
—Por que está triste? —Porque sou egoísta, e não tenho o direito.
Emília sorriu:
—A nossa amizade é uma flor multo suave para este clima da sala. Não lhe parece?... Por força há de sentir aqui.
Fazia uma linda noite, sem luar. As copas escuras das árvores nadavam no azul diáfano, borrifado pela doce luz das estrelas.
Emília recostou-se à janela, e enquanto falava, seus olhos se banhavam na suave limpidez do céu. —Como está, estrelada a noite!... Ali naquele silêncio a alma pode abrir-se; não é verdade? Não há rumor que a assuste, nem esse vapor que abrasa!... Eu gosto da noite!... É mais doce que o dia.
É quando eu sinto, quando sei melhor sentir, é à noite; sobretudo nas noites escuras, como esta, em que só há, estrelas! O sol me alegra, como a grande claridade das salas, e me anima. Eu creio que as horas, em que sou mais bonita, é ao meio-dia no campo e à, meia-noite no baile! Não sabe por quê? Tenho bebido muita luz; a luz é um alimento para mim. Mas a hora em que sou mais bonita, não é a hora em que me sinto melhor, acredite! Na sombra sim, conheço que meu coração é bom. Pareço-me com as flores. De dia as cores mais vivas; de noite o perfume mais suave! Eu escutava Emília, enlevado como sempre que, em nossas conversas íntimas, ela fazia cintilar a graça de seu espirito volúbil. E se vinham de envolta alguns raios dessa fragrância, que ela chamava perfumes de sua alma, eu os recolhia santamente no coração.
Enquanto ela falava, eu reprimia a respiração para não perturbar a melodia de suas palavras. Se me perguntava alguma cousa, tinha medo de responder-lhe; parecia que minha voz ia dissipar o meu êxtase. —As melhores horas da minha vida, vivo-as de noite. É quando Deus me visita. Ele desce nos raios das estrelas, e entra em minha alma, aberta para recebê-lo. Tenho-o sentido aqui dentro tantas vezes!... Veiome agora um capricho!... Olhe!... Quando essas luzes se apagarem, e todos recolherem, quero gozar desta bela noite...
Mas há de ser lá, à sombra daquelas jaqueiras, à beira do lago.
As jaqueiras de que falava Emília ficavam muito distantes da casa. Insensivelmente movi a cabeça com um gesto de dúvida.
—O senhor não acredita?... Pois vá até lá.
—Consente!...
Seu olhar casto pousou em mim, como uma linda criança conchegando-se no regaço materno. —A uma hora. Eu o espero.
Que estranha e bizarra criatura, Paulo! Com que desdém, ela, frágil menina de dezessete anos, pura como um anjo, calcava aos pés todas as considerações sociais, todos os prejuízos do mundo! Ela dava-me a maior prova de confiança, e o fazia singela e natural, apenas com uma dignidade meiga de rainha compassiva. Arriscava por mim sua reputação, e nem o mais leve receio-lhe perpassava na fronte serena.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.