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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— E eu afirmo-lhe que não; que ele nunca teve paixão pela mulher. O que ele adorava era unicamente a sua beleza, a forma; isto é, um acidente. O homem que ama a mulher destinada a ser companheira de sua existência, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa mulher, porque a desgraça a feriu no invólucro material de sua alma. Ele pode sofrer com aquela desgraça; mas deve redobrar de amor e adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ela, a mulher amada, se lembre nunca de que o tem para ele, embora o tenha bem claro para os indiferentes.

—  É bonito de dizer! acudiu um apreciador das mulheres formosas.

— Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, talvez por experiência própria.

— O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo, replicou Leopoldo.

— Ah!

O mancebo cravou em Amélia um olhar eloqüente, e disse com a palavra lenta e calma:

— É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de ocultá-lo? Minha alma já passou por esta dura prova, e saiu triunfante. Hoje sei que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me destinou.

Amélia perturbou-se com aquelas palavras, e o olhar ardente que parecia gravá-las em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito tempo a figura pálida de Leopoldo esvoaçou na penumbra de seu leito de virgem.

CAPÍTULO  X

Pela manhã se dissiparam essas névoas que no espírito de Amélia deixara a noite antecedente.

Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabelos soltos pelas espáduas, encostou o rosto à vidraça da janela. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fora vissem o seu gracioso desalinho.

Não tardou que se ouvisse um tropel de cavalo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos cor-de-rosa, Horácio cortejou enviando um sorriso à janela.

À noite o moço dirigiu-se à casa do Sales; Amélia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horácio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.

Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistência visível na fímbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horácio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pezinho que idolatrava.

A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.

Desde princípio notara Amélia aquele sestro de Horácio. Quando ela o supunha mais embebido em seus encantos, mais rendido à sua beleza, surpreendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.

Muitas vezes ela perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar-lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se a catar sobre o tapete alguma idéia que não se animava a revelar. Já tinha sucedido, durante que ela tocava, distrair-se o leão, e com a atenção presa no pedal, nem ouvir a peça de música.

Horácio a amava sem dúvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ela uma paixão veemente. Ele, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; ele ali estava cativo da vontade dela, e atado ao seu carro triunfal. Que prova mais eloqüente de profundo amor, do que essa submissão espontânea do altivo leão?

A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hércules, fiando aos pés de Onfale, é o último canto, o epílogo sublime da epopéia da forca humana. Exterminando a fera, a natureza e até os deuses, Hércules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.

Amélia compreendia que homenagem eloqüente à sua beleza havia naquela adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.

Mas lá no íntimo alguma coisa lhe remordia quando notava a pertinácia com que o olhar de Horácio procurava a fímbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horácio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo dela com uma paixão fingida.

A verdade, porém, é a que sabemos. Horácio tinha paixão louca pelo pezinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a corte a Amélia, ele prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquela forma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido demais, conheceu ele o zelo com que a dona recatava o tesouro. Contudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um acidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.

(continua...)

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