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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Perdão, minha madrasta! Ao menos cuido em pagar a dívida mais sagrada: ouça-me bem! Testemunhas Simão de Souza e d. Estefânia: quero regenerar com o casamento, a vítima de minha sedução, a amante que a senhora me deu na casa de meu pai!

Teodora (confundida) Oh!

Firmino Desgraçada!... Que calúnia atroz!!!

Fim do 4º

Ato Ato 5º

a mesma cena do 4º ato

Cena 1ª

Firmino: Peregrino: e Silvia que logo se retira

Firmino Que demora!

Silvia Eu estava no 2º andar.

Firmino E Corina?

Silvia Recolheu-se ao quarto da srª. d. Suzana.

Firmino Ainda! Peregr. Procurou a melhor companhia que pode ter na ausência de minha madrasta.

Firmino Em todo caso não te afastes do lugar onde ela se acha, e cumpre as ordens que tens recebido. (entra no gabinete)

Peregr.

Silvia, põe-te a janela, e se minha madrasta chegar antes que eu tenha saído, corre logo a prevenir-me. Basta que te mostres à porta desta sala.

Silvia Pode ficar descansado.

Peregr.

Com certeza d. Corina não recebeu hoje carta, nem recado?...

Silvia Nem recado, nem carta.

Peregr.

Vai para a janela. (vai-se Silvia)

Firmino (saindo) Paga bem a essa criada: é o único meio de impedir que ela venda iguais serviços a outro.

Peregr.

Não terá tempo: amanhã será o dia afortunado, se minha madrasta não se opuser à partida de Corina.

Firmino Teodora abateu-se, coitada: parece castigar-se pela injusta difamação de Corina: já lhe perdoei; perdoa-lhe também: foi devaneio de mãe.

Peregr.

Aprova ela a retirada da sua pupila para a chácara de Andaraí?

Firmino Tanto ela como Corina concordaram nisso desde que souberam que a tia Suzana vai também para a chácara.

Peregr.

Eis o essencial: o mais é simples.

Firmino Peregrino, nós nos expomos a um grande opróbrio; que ao menos o resultado compense o escândalo.

Peregr.

Agora o meu empenho é salvar meu pai da mais leve suspeita de conivência comigo. Amanhã de manhã vossa mercê escreverá ao dr. André, marcando-lhe dia e hora para tratar do seu casamento com a sua pupila, a quem dará a agradável notícia; a retirada para a chácara explica-se pela conveniência de separar Corina de mim e de Carlos que pretendíamos a sua mão.

Firmino E que mais, Peregrino?...

Peregr.

Amanhã vossa mercê procurará o juiz dos órfãos que, sem dúvida, tomará todas as suas resoluções e principalmente aquela que fará distanciar de seus filhos a noiva do dr. André.

Firmino E à tarde levarei Corina e a tia Suzana para a chácara...

Peregr.

E Silvia e Roberto as acompanharão, ficando lá a seu serviço e em sua guarda...

Firmino E tu?...

Peregr.

A chácara é solitária, meu pai; as noites de junho são longas, e as que estão correndo agora, escuras e propícias aos ladrões e aos amantes: Silvia e Roberto me estão dedicados; o seu feitor é criatura minha, e tarde, bem tarde, vossa mercê saberá que um filho ingrato lhe roubou a pupila.

Firmino Peregrino!

Peregr.

Tenho tudo pronto, meu pai: o clorofórmio para o lenço que sufocará os gritos de Corina, e a tornará por minutos... insensível... a carruagem para fugir; o abrigo ermo e seguro para ocultarme por alguns dias...

Firmino Mas se ela morresse... se involuntariamente a matasses com a perigosa aplicação de clorofórmio...

Peregr.

Que receio inconseqüente!... Não vê que eu tenho necessidade de Corina viva?... Sei o que vou fazer.

Firmino Tu nem calculas com a desesperada resistência da vítima!...

Peregr.

Meu pai... amanhã à noite eu me despedirei, ressentido de vossa mercê, recusando o seu desamor e revoltando-me contra a sua autoridade: naturalmente o sr. Teófilo estará aqui, e será testemunha da minha desobediência e ingratidão: um filho tão mau... um filho que desacata seu pai...

Firmino Que queres dizer?...

Peregr.

Digo que tudo está calculado por mim, e que vossa mercê deve poupar-me às explicações. Eu vou ser opressor... algoz durante alguns dias para ser feliz, rico e esposo estremecido toda minha vida.

Firmino Oh, meu filho... deveras que planejamos um crime... sim... o mundo, porém, aí está erigindo altares ao ouro... a sociedade aí está honrando, purificando a riqueza ainda mesmo provinda de fontes turvas e lodosas... e escarnecendo da pobreza ou pelo menos, aviltando-a como o desvalimento do homem de honra que é pobre... Peregrino, o teu casamento lavará a nódoa... vou... não hesito mais... vai... mas lembra-te bem: nestes casos extremos há só um crime que é imperdoável...

Peregr.

Qual?

Firmino O malograr-se o atentado.

Peregr.

Posso contar com meu pai?...

Firmino Farei tudo por ti.

Peregr.

Corina será sua nora. (beija a mão de Firmino)

Firmino Julgas que desde hoje devo mostrar-me favorável ao dr. André?

Peregr.

Não, meu pai; só amanhã: é preciso não dar tempo nem aos assomos da esperança. (Silvia chega à frente e faz-se sentar, tossindo) Ah, chega minha madrasta: sairei sem que ela me veja. (vai-se)

Firmino Silvia! (aparece Silvia) A senhora já entrou?...

(continua...)

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