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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ – Mais?... então é o infinito na desgraça de Casimiro... estou caído das alturas et coetera!

IRENE – Não é o infinito, mas é o impossível moral e absoluto...

BRAZ – Que ilusão a minha! e eu que contava... mas então...

IRENE – O homem por quem sou amada, aquele que amo... sr. Braz...

BRAZ – Querem ver que sou eu...

IRENE – É... Mário... o filho do sr. Casimiro...

CENA IV

BRAZ, IRENE, CASIMIRO no gabinete e MÁRIO, no fundo

BRAZ – Como? esta surdez é o diabo.

IRENE (Alto) – O homem por quem sou amada... aquele que amo... é Mário...

BRAZ – Mário? a atrapalhação é séria; porém...Mário é um estróina.

IRENE – Tem o mais nobre coração... é jovem e belo; eu o amo...o seu defeito era a ociosidade... ama-me porém ternamente... (Abre-se a porta do gabinete; Casimiro com os traços decompostos; Mário ao fundo entusiasmado) eu conseguirei corrigi-la... e pelo encanto... pela pureza e santidade do nosso amor levá-lo a trabalhar, a ser útil a si, à sociedade, e a esquecer entretenimentos vãos. (Casimiro sai arrebatado ao mesmo tempo que Mário avança)

MÁRIO – Prova! acabo de vender Hipogrifo. (Confusão de Casimiro) IRENE – Ah! meu Deus!

BRAZ (A Casimiro) – Contém-te, Mário chegou apenas a poucos momentos, e nada ouviu sobre tuas loucas pretensões... é indispensável que ele as ignore sempre.

CASIMIRO (A Braz) – Mas como está desmoralizada a mocidade! (A Irene) Minha senhora.

IRENE – Sr... Casimiro...

CASIMIRO – Peço perdão...entrei precipitado...

MÁRIO – Foi a mais feliz surpresa, meu pai.

CASIMIRO – Impertinente! sempre desassisado...

MÁRIO – Porque vendi Hipogrifo? dois contos para raiz de fortuna abençoada pelo amor de um anjo.

BRAZ – Adorável estróina, Deus te abençoe.

IRENE – Eu me confundo... e preferiria ir ver as senhoras.

CASIMIRO (A Mário) – Não compreendes que és inconveniente?

MÁRIO – Pois há mal no que disse?... meu pai, amo dª. Irene, ela ama-me; logo nos amamos; eu era um vadio, agora vou trabalhar; prova de juízo, vendo Hipogrifo; o que falta só é que meu pai aprove o que falta.

CASIMIRO (A Braz) – Que lição cruel, malvado!

BRAZ (A Casimiro) – Deixa-te de tingir os cabelos; resigna-te à reforma de namorado et coetera, e sabe ser feliz pela felicidade de teus filhos.

CENA V

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, VIOLANTE e CLEMÊNCIA

VIOLANTE – Mil agradecimentos, dª. Irene, por ter vindo honrar o nosso jantar, que será o do meu noivado.

IRENE – Renovo-lhe os meus parabéns, minha senhora; e o seu noivado quando será, dª. Clemência?! espero ser convidada.

CLEMÊNCIA – Fiz dois votos: o primeiro para que nós duas tenhamos as nossas bodas no mesmo dia; o segundo, para que a titia assista a elas ainda solteira e sem noivo.

VIOLANTE – Esta pobre invejosa não passa de praguenta amalucada: a minha dita lhe tira o sono e faz delirar; em parte devo desculpá-la: o meu casamento, dª. Irene, foi resolvido pelas linhas tortas com que Deus costuma escrever direito; principiou por brinquedo de aposta, e vai acabar em coisa séria. Ah! se eu lhe contasse toda a história...

mas... bem vê que por fim de contas há no nosso sexo certas revoltas do pudor...

IRENE – Oh!... sem dúvida...

BRAZ – E com todas essas revoltas a madrinha casa-se por fim de contas et coetera!

CLEMÊNCIA – Quem sabe? eu hei de ver para crer...

VIOLANTE – O que pretendes é perturbar-me o espírito com temores vãos... ficaste vencida!

CLEMÊNCIA – Confesso; mas espero ficar sem vencedora. (Impaciência de Violante) titia, a que horas devem chegar os seus três pretendentes?

VIOLANTE – Às quatro horas precisas (Consulta o relógio) são apenas três... ainda tenho de esperar um século!

CLEMÊNCIA – E em uma hora transforma-se o mundo. (A Braz) Estou com medo...

BRAZ (A Clemência) – E eu não; confio muito nas misérias humanas.

CENA VI

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e um

criado, que apresenta em uma salva de prata uma carta a Violante e retira-se

VIOLANTE (A Clemência.) – Vê de quem é essa carta e o que contém.

CLEMÊNCIA (Abre e lê.) – Oh!

CASIMIRO – Que é?

CLEMÊNCIA (Lendo.) – “Minha senhora: cedendo, a meu pesar, a circunstâncias imperiosas, sou obrigado a desistir das minhas pretensões à mão veneranda de v. exa.; se, porém, o destino não me permite ser esposo, serei ao menos sempre de v. exa. o mais humilde criado... dr. Augusto de Melo.” CASIMIRO – E esta?

VIOLANTE – É falso! Como não sei ler, a maldita invejosa abusa da minha ignorância. (Toma a carta e dá-a a Braz.) Braz, lê tu esta carta por fim de contas.

BRAZ (Depois de ler para si.) – Tal e qual, madrinha! E a letra e a firma são do dr. Augusto. Custa a crer... mas este... foi-se! et coetera.

VIOLANTE (Dissimulando mal.) – Por fim de contas, era esse o que menos me agradava dos três.

CLEMÊNCIA – Ah, titia!...

VIOLANTE (Com força.) – Ainda tenho dois.

CENA VII

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta segunda carta a Violante e vai-se.

MÁRIO – Este criado tem cara de correio de más novas.

VIOLANTE (Confusa dá a carta a Braz.) – Lê tu, meu Braz; lê porém direito...

(continua...)

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