Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CINCINATO, GERTRUDES, BRÁULIO, CRIADO apressado.
CRIADO – Com urgência... com urgência... (Dá uma carta a Bráulio.)
BRÁULIO (A um lado e Gertrudes lendo pelo ombro de Bráulio.) – “Por amor da bela Dionísia: dentro de meia hora a polícia cercará a sua casa; há denúncia de que aí está jogando um caixeiro que falsificou a firma do amo em letras que descontou na praça. Previna-se: queime este bilhete.” Inda mais esta!... a polícia!... (Corre para a direita.)
GERTRUDES – Misericórdia!...
CINCINATO (Levantando-se.) – Dionísia foi presa?...
GERTRUDES – Não... não... é a polícia que vem cercar-nos a casa!...
CINCINATO – A polícia?... em casa de jogo?... a velha dormente?... oh! enquanto ela pinta os cabelos, põe as anquinhas, e calça as botinas, eu toco a retirada em passo ordinário sem receio de encontro perseguidor. (Vai-se: ansiedade de Gertrudes.)
CENA XV
GERTRUDES, BRÁULIO, FÁBIO E JOGADORES todos em susto e desordem, falando precipitados e quase a um tempo.
VOZES – A polícia! a polícia!...
GERTRUDES – A casa já está cercada!
VOZES – Tranque-se a porta! (Trancam-se as portas.) VOZES – O asilo do cidadão é inviolável.
GERTRUDES – Ouço passos na escada.
UM VELHO – Sou oficial da Ordem da Rosa e tenho honras de coronel... hão de respeitá-las...
UM JOVEM – É meu pai! é meu pai!...
UMA VOZ – Oh! que desgraça!...
VOZES – Que foi? ...
A MESMA VOZ – Um moço atirou-se da janela abaixo!...
VOZES – Infeliz!... é o caixeiro!...
OUTRAS VOZES – Fujamos pelos fundos da casa!...
BRÁULIO – Senhores!... a casa ainda não está cercada...
GRITO GERAL – Fujamos!... (Corrida geral.)
FIM DO QUARTO ATO
ATO V
A mesma decoração do terceiro ato.
CENA I
CLARIMUNDO, JOSÉ que entra, e logo CINCINATO
CLARIMUNDO (Vendo José.) – Enfim!
JOSÉ – O sr. Doutor já não estava em casa: deixei a carta.
CLARIMUNDO (Impaciente.) E Helena poderá esperar?...
CINCINATO (Entrando.) – Boletim da batalha de ontem...
CLARIMUNDO (A José.) – Vai-te. (A Cincinato.) Tu aqui?... e essa maldita mulher.
CINCINATO – Estamos livres dela: pensou que fugia comigo e achou-se em caminho com um substituto que arranjei do pé para a mão.
CLARIMUNDO – E Adriano?
CINCINATO – Ainda não voltou?...
CLARIMUNDO – Desde ontem de manhã... o ingrato!... enquanto a esposa ameaçada talvez da morte.
CINCINATO – Dª. Helena!
CLARIMUNDO – Passou horrível a noite: o médico deixou-a adormecida ao amanhecer; ela, porém, despertou uma hora depois em novo ataque nervoso, e esperem lá o doutor!... agora dormiu outra vez... embora... eu quero um médico à sua cabeceira.
CINCINATO – Em dez minutos está servido... (Tomando o chapéu.)
CLARIMUNDO – Merece confiança? (Para um carro.)
CINCINATO – É moço; mas vale um velho sábio... um carro... e talvez o médico...
CLARIMUNDO – Que seja... vai buscar o outro... um há de ficar aqui.
CINCINATO – Vou como se fosse em velocípede. (Vai-se.)
CENA II
CLARIMUNDO, que acompanha Cincinato até a porta – ÚRSULA
CLARIMUNDO (Ao ver Úrsula.) – Ah! minha senhora...
ÚRSULA (Entrando.) – Sr. Clarimundo. (Dá-lhe a mão) dª. Helena?... o seu médico, que também é o meu, acaba de dar-me notícias que me afligiram... e corri...
CLARIMUNDO – Que pensa ele?...
ÚRSULA – Por ora nada de positivo; porque, pelo que diz, nem pode fazer perfeito exame da doente no estado em que ela se achava..
CLARIMUNDO – É verdade... terríveis fenômenos nervosos...
ÚRSULA – E agora? como está dª. Helena?
CLARIMUNDO – Dorme sossegada.
ÚRSULA – Se o permite, esperarei que ela acorde.
CLARIMUNDO – Oh! eu agradeço muito a v. ex. o interesse que toma por Helena... o dia vai ser talvez de amargurado pranto... v. ex. também há de chorar... pois que é sensível... quer ver... minha filha no horror dos seus tormentos... Adriano sobe a escada... venha... entre...
ÚRSULA – Sr. Clarimundo...
CLARIMUNDO – Por quem é... (Oferece-lhe a mão.) Desejo ficar só com Adriano.
CENA III
CLARIMUNDO, que conduz Úrsula até à porta e volta severo de braços cruzados – ADRIANO pálido e desfigurado.
ADRIANO – Sr. Clarimundo... (Silêncio de Clarimundo.) foi-me de martírios a noite... (Silêncio.) tenho sofrido muito... (Silêncio.) porque me olha assim?... poupeme... (Silêncio.) ah sr. Clarimundo... (Clarimundo vai fechar e tira a chave da porta do interior) Por que fecha essa porta?...
CLARIMUNDO – Ontem um homem que eu supunha honrado, e a quem ofereci o perdão de vergonhosos desatinos, prometeu-me solenemente não tornar a jogar, e ser digno de sua esposa; e ontem mesmo ele jogou, e mentiu à fidelidade conjugal, à honestidade, e ao brio: como é que devo hoje qualificar esse homem?...
ADRIANO – Sr. Clarimundo! v. s. me insulta!...
CLARIMUNDO – Fale baixo...
ADRIANO – Abusa do respeito talvez excessivo...
CLARIMUNDO – Desgraçado! Helena está em perigo de morte, e aos gritos do algoz.
ADRIANO (Correndo à porta.) – Helena!... (Volta.) a chave daquela porta!... a chave!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.