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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

“Vossa Mercê lembrar-se-á que no fim do ano de 1837 tinha eu feito dezessete anos e concluído os meus estudos preparatórios, quando desapareceu do gabinete de minha prima Honorina, menina então de nove anos de idade, uma cruz, chamada por nós todos — a cruz da família —, toda crivada de riquíssimos brilhantes. Um jovem caixeiro de nossa casa acusou-me de a haver furtado; algumas aparências pareceram justificar essa infame imputação; e, apesar de todos os meus protestos de inocência, apesar do grito saído do coração de minha mãe, que então vivia, e que foi a única que defendeu seu filho, fui lançado fora de casa dos meus maiores e, se escapei das mãos da justiça, foi porque, pensaram eles, cumpria esconder a vergonha de que todos participavam.

“Lembro-me perfeitamente do que então se passou. Meu avô disse: — Vai-te para sempre de meus olhos! e, se tens piedade de nós, muda o teu nome.

“Minha avó disse: — Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim.

“Meu pai disse-me: — Consuma o fogo todas as minhas riquezas antes que tu possas tocar em uma só moeda dos meus cofres.

“E minha mãe disse: — Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência.

“Na sala estavam ainda três pessoas que nada disseram: Vossa Mercê, meu tio, que hesitava; Honorina, minha prima, que nada parecia compreender; Lúcia, que me tinha dado de mamar, e que chorava como minha mãe.

“Quando eu saí da sala, ouvi as maldições de meus maiores; quando eu me apartei da casa, vi que as portas se fecharam para mim. Delirante e exasperado corri para o mar; ia vingarme, suicidando-me, quando uma fiel escrava me veio entregar uma bolsa e um anel dos cabelos de minha mãe. Então eu me lembrei das suas palavras: — Vai-te, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar tua inocência.

“Eu tornei à vida!... guardei o precioso anel, guardei a bolsa, oh!... era a bolsa de minha mãe, que podia receber sem corar!... eu tornei à vida, um anjo me tinha arrancado do suicídio: isto não é um sacrilégio; uma mãe é o segundo anjo da guarda do filho.

“Agora, meu tio, Vossa Mercê consentirá que eu conte, em poucas palavras, quanto me tem sucedido de então para cá.

“Sem plano algum de vida, sem destino e sem meios, vi-me só no mundo e na idade das loucuras; era preciso seguir um caminho, tomei o primeiro que se me apresentou. A cidade da Bahia se achava em braços com o gênio da revolta; o governo chamava soldados; eu me ofereci, como voluntário, vesti uma farda, tomei uma espingarda, e parti.

“Lá, no empenho do jogo dos combates, em que tantas mil vezes um homem defronte de outro pára a vida contra a vida, eu estive cem vezes a ponto de perder a partida; mas fosse porque o anel de cabelos de minha mãe seja um talismã sagrado, ou porque a morte fuja daquele que a não teme, e antes a procura, eu ouvi assobiar por cima da minha cabeça e em volta de mim mil balas inimigas, sem que uma só me tacasse. O corpo a que pertencia foi um dos primeiros que entrou na cidade.

“Houve cenas horríveis, que é necessário esquecer.

“Uma, porém, dentre todas preciso eu lembrar, porque teve ela benéfica influência sobre a minha vida.

“Sabe-se que o desespero e o delírio dos vencidos ateou o archote do incêndio. Em certa ocasião uma força, na qual eu me contava, era empregada a apagar as chamas que estavam terrivelmente devorando algumas casas. Defronte de uma dessas vi um homem velho, respeitável, com os vestidos queimados e caído por terra; ouvi as suas vozes... eram gritos de dor indizível... — minha filha!... — dizia ele... depois uma mulher, também velha, também respeitável, que uma, duas e três vezes se tinha atirado às chamas, e outras três caído para trás sufocada, avançou para nós, e com lamentos que repassavam o coração dos que a ouviam, com acento de aflição tão profunda, como o amor de uma mãe, ela, apontando para uma janela, exclamou: — minha filha!... minha filha!...

“Eu olhei, e vi através das chamas aparecer uma moça, que recuou pela força do fumo... ela tinha estendido os braços, implorando compaixão... pedindo que a salvassem... e a morte, a morte com cem línguas de fogo ia prestes devorá-la...

“Era uma cena horrível!... e na minha alma brilhou o pensamento de salvar essa moça...

“Outra vez olhei... as chamas tinham conquistado toda a casa... fantasmas de fumo defendiam as portas... o instinto da conservação me empurrava para longe daquele inferno... o generoso pensamento de salvar a moça ia apagar-se...

“A mãe da desditosa chorava... pedia... mandava... bradava convulsa e delirante...

“O seu grito era um... único... cruel e despedaçador... sempre o mesmo, mil vezes repetido... ela bradava:

“— Minha filha!

“Oh!... mas aquela dor de mãe caiu no meu coração e se espalhou na minha alma... lembrei-me de minha mãe! e, beijando o anel de seus cabelos, gritei — eu a salvo! — e desapareci nas chamas.

(continua...)

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