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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Passaram-se os oito dias do prazo marcado, chegou a noite de 20 de julho, e ainda antes das nove horas já se achavam reunidos na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, além de alguns outros todos os mancebos que ali tinham ceado oito dias antes.

Faltava somente o Belo Senhor.

Havia curiosidade como que ansiosa.

Nenhum dos convidados ousava supor que ele faltasse ao prazo e à ceia.

A questão do pagamento da ceia, das fivelas de ouro, da casaca nova, e enfim a surpresa prometida a Agostinho Fuas preocupavam a todos.

A ceia já estava servida e era na verdade profusa para a habilidade culinária de Manoel Gago, o dono da taberna, que até então se limitara a dar aos seus fregueses peixe frito, camarão, chouriço e rim de vaca.

Os nossos leitores dispensam a descrição da ceia.

Ao toque de nove horas entrou pela taberna o Belo Senhor trajando fina casaca nova e trazendo nos sapatos ricas fivelas de ouro.

Os amigos nem tiveram tempo de aplaudi-lo, porque logo em seguida dois robustos negros se mostraram conduzindo elegante cadeirinha que depuseram a entrada da saleta.

- Agostinho Fuas, disse o Belo Senhor, sem dúvida que eu devia começar pela agradável surpresa que te prometi.

E, abrindo as cortinas da cadeirinha, ofereceu a mão e ajudou a sair dela uma bonita moça morena.

- Apresento-lhes a linda e mimosa Rosinha Feitiço, que nos dará a glória de cear conosco, se Agostinho Fuas o permitir.

A surpresa foi realmente grande, e até a bela Rosinha também a partilhou, vendo Agostinho Fuas confundido e amuado.

- Antônio Pereira! podemos sentar-nos à mesa?

- Eu não me sentarei à mesa com a senhora Rosinha sem que ela me explique como se apresenta aqui!... disse Agostinho Fuas.

- Camarada! que ciúmes de mau gosto!... observou o Belo Senhor a sorrir.

- Então isso é Ópera do Judeu?... perguntou a bonita morena.

E tirou do bolso e entregou a Agostinho uma carta.

O amante ciumento leu alto com admiração e ainda com maior surpresa:

"Feitiço: - Quero que venhas cear comigo em boa companhia; como porém não me é possível ir buscar-te, entendi-me com o meu amigo Belo Senhor, que vai receber-te às oito e meia horas da noite, levando cadeirinha para te conduzir. Podes confiar-te a ele, e vem sem falta; eu o exijo: é questão de honra! até logo, Feitiço. - Teu Gostinho." - E então? perguntou a atriz da casa da ópera.

- O mesmo tratamento que me dás, e que te dou!... e a minha letra!... porque é a minha letra... aminha assinatura.. é, juro que é; mas juro também que não escrevi esta carta! exclamou Agostinho Fuas.

- Oh! ceemos, Agostinho Fuas! disse o Belo Senhor.

Sentaram-se todos; mas imediatamente Manoel Gago chegou-se a Antônio Pereira, e entregoulhe a conta da ceia.

- Que diabo é isso?... que tenho eu com o rol e com a conta da ceia? disse Antônio Pereira.

Manoel Gago nem pode falar; mas, correndo a taberna, tirou da gaveta um papel e veio apresentá-lo a Antônio Pereira.

O papel dizia assim:

"Sr. Manoel Gago, a 20 de julho de 1783 quero que às 9 horas da noite precisas tenha pronta e servida à mesa para 20 pessoas ceia constante dos pratos e vinhos seguintes... (estendia-se o rol): não olhe as despesas; quero, porém, que, logo ao começar a ceia, me apresente a conta diante de todos, é caso de aposta. - Seu freguês, Antônio Pereira."

O papel correu pela mão de todos, e todos deram testemunho de que a letra e a assinatura eram de Antônio Pereira, que puxou pela bolsa e pagou a ceia a rir alegremente, dizendo aos amigos:

- Tal e qual como Agostinho Fuas!... reconheço por minhas a letra e assinatura... não há questão... mas leve-me o demo, se eu escrevi e assinei isso!...

O Belo Senhor ceava gulosamente e sem falar.

Mas antes das dez horas entraram na saleta um alfaiate e um ourives, que, desfazendo-se em desculpas, e protestando que se mostravam ali só por obediência às ordens escritas e positivas, entregaram o primeiro a Domingos Lopo a conta de uma casaca do mais fino pano e o segundo a Afonso Martinho a de primorosas fivelas de ouro, que também por ordem escrita e assinada um tinha feito e o outro entregado ao Belo Senhor; sob a condição de cobrança realizada naquela noite e àquela hora na taberna de Manoel Gago, e durante a ceia que ali se daria.

O ourives e o alfaiate, fregueses dos dois ricos tafuis, tinham obedecido ao extravagante capricho de mancebos notáveis por devaneios e originalidades travessas de juventude, e, além disso, seus fregueses de maiores despesas e do mais pronto pagamento.

Afonso Martinho e Domingos Lopo riram-se ainda mais do que Antônio Pereira, e todos com eles verificaram, depois de acurado exame, que era impossível negar a letra das ordens e as assinaturas dos dois pagantes da casaca de pano fino e das fivelas de ouro do Belo Senhor.

E Domingos Lopo e Afonso Martinho pagaram ao som dos aplausos da companhia ao alfaiate e ao ourives.

(continua...)

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