Por Adolfo Caminha (1896)
— O Evaristo vive a gracejar, Sr. Luís — disse Adelaide. — A mania dele é chamar-se pobre, lamentar-se, berrar contra quem tem dinheiro!... Isso até desanima.
— Mas, então, que querem vocês que eu diga? Que ando com os bolsos recheados? que tenho apólices no Tesouro? que deixei na província uma fazenda de gado? que trago os baús repletos de ouro e prata? Ora muito obrigado, minha mulher!
— Não estou dizendo isso...
Aquele — que querem vocês que eu diga? — referia-se exclusivamente ao marido de D. Branca e a Adelaide. Esta notou o carinhoso plural e como que sentiu no fundo d'alma um prazerzinho em se achar na companhia de homem tão educado e nobre. Aquele vocês, dirigido a ela e ao Sr. Luís, trouxe-lhe um pequeno abalo ao coração, qualquer coisa de intimamente agradável.
— D. Adelaide não está dizendo isso — repetiu Furtado. — O que ela está dizendo é que tens a mania da pobreza, a mania das lamentações...
D. Branca, por seu turno, observou que o marido tratava Adelaide com muita distinção, muita gentileza; mas atribuiu à natural bonomia do secretário.
Evaristo é que não observou coisíssima alguma; dissera vocês, porque achava familiar o tratamento e porque tratava o Luís por você e Adelaide por você, isoladamente. Não havia razão para, referindo-se aos dois, proceder doutro modo.
A mulher, porém, descobre manchas no sol em pleno meio-dia e é capaz de enxergar, com os olhos fechados, uma agulha num palheiro.
No outro dia, quando Evaristo voltou do Banco, encontrou o segundo andar mobiliado; cadeiras, mesas, uma estante para livros, bela cama de casal, guardaroupa, cabides... o inferno!
Adelaide recebeu-o no primeiro andai, como de costume, risonha e feliz, mas estranhando que lhe não perguntasse coisa alguma, rompeu o silêncio:
— Que despesão fizeste!
— Despesão?..
— Sim; quanto custariam as cadeiras, a cama, o sofá.
Evaristo, em pé, no alto da escada, julgou que a mulher houvesse enlouquecido e olhava-a, sem compreender as palavras.
— Que cama? que sofá? que cadeiras?...
— Que mandaste da rua...
— Eu?!
— Está de muito bom gosto a cama, Sr. Evaristo — saltou D. Branca. —
Felicito-o!
Cada vez o bacharel compreendia menos o que lhe estava entrando pelos ouvidos.
— De bom gosto?...
— Pois não foi o senhor quem escolheu a mobília?
— Eu não escolhi nada, pelo amor de Deus! - nem sei do que se trata...
— Quer nos debicar, Adelaide, quer fazer surpresa... — disse a mulher do secretário.
— Debicar!... surpresa!... Temos aqui almas doutro mundo?
Adelaide não quis acreditar numa brincadeira do marido, tal era a sisudez que ele imprimia às palavras naquela ocasião. Evaristo brincava, mas conhecia-se logo o seu tom de pilhéria.
— Deixem-me primeiro tomar fôlego, que eu estou me acabando! — exclamou, dirigindo-se à sala de jantar.
As duas senhoras o acompanharam, entreolhando-se.
O bacharel encostou a bengala, respirou com alívio e sentou-se.
— O Furtado inda não veio?
— Té agora, não — respondeu D. Branca.
— Então, que história é essa de cadeiras e camas e sofás? Expliquem-se!
Adelaide explicou o caso da mobília: às duas horas, mais ou menos, tinha vindo um galego trazendo, numa carrocinha, meia dúzia de cadeiras, um sofá, uma cama de casal, uma estante e outros objetos "para a casa do Sr. Evaristo de Holanda, em Botafogo". Não podia haver engano.
— Onde estão esses objetos?
— Lá em cima, tudo arrumado. A cama é que é um pouco larga...
Pois ele não mandara coisíssima alguma nem tampouco autorizara compra de móveis ao Furtado. Às duas horas tinha estado com o secretário no Banco e ele em tal coisa não falara. Salvo se o amigo inda uma vez queria ser generoso e bom apresentando seu nome a algum armazém de móveis... Podia muito bem ser isso... Mas, então, dir-lhe-ia francamente, prevenindo-o com antecedência, tomando mesmo uma nota dos objetos indispensáveis a um casal. O Furtado, porém, não o prevenira, não o avisara sequer! Donde tinham vindo esses móveis? de que armazém? de que rua?
— Você compreende que a minha obrigação era recebê-los — fez Adelaide numa voz humilde.
— Perfeitamente, ninguém diz o contrário.
— O Luís explicará tudo, Sr. Evaristo. Havemos de saber quem foi da idéia. — Corramos um olhar nos tais móveis — disse o bacharel, erguendo-se.
O pavimento superior da casa já não tinha o mesmo aspecto desolado e vazio da véspera, com as suas paredes escorridas, com o seu ar glacial de eremitério. Não. A sala da frente impunha-se agora aos olhos, convidando à familiaridade, ao repouso honesto, à leitura de um bom livro. Meia dúzia de cadeiras austríacas, torneadas, o sofá, cadeiras de balanço, dois consolos, outra mesinha decorativa para o centro... Na alcova o leito, e o toucador com espelho de cristal e pedramármore. Num dos quartos, o guarda-roupa e os baús (os célebres baús de couro) e no outro a estante. Assim é que Adelaide dispusera os móveis, em acordo com D. Branca; unicamente para surpreender Evaristo. Depois comprar-se-ia cortinas e bibelôs. O soalho inda estava úmido da lavagem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.