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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Visitamos também (ia-me esquecendo) os aquedutos que fornecem água à população da cidade. Todos eles vão despejar num imenso reservatório de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no solo, formando uma espécie de tanque de grande capacidade para comportar muitos e muitos metros cúbicos d'água cristalina. O sítio, onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inacessíveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céu límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até aí se faz em diligências puxadas a mulas, arriscando-se o turista a chegar sem bofes ao fim da jornada longa ~ sem o atrativo das belas paisagens claras do Brasil.

O sol é ardentíssimo em Cuba, e, entretanto, as diligências partem da cidade pela manhã e chegam às onze horas ao reservatório, onde não se encontram hotéis nem botequins. Sua-se por todos os poros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moído.

O Passeio Público... Oh! não falemos de coisas tristes. Quem já viu o Passeio Público da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmíssimo cemitério deserto e sombrio, o mesmíssimo abandono criminoso; árvores colossais, meia dúzia de castanheiros decrépitos, e um silêncio, um silêncio absoluto de arrepiar cabelos. Aos domingos costuma ir chorar para ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Público em Havana.

La Havana, de resto, é o que se pode chamar uma cidade pacífica, sossegada e sem atrativos. A impressão que ela deixa no espírito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.

Mas, para que não fosse de todo ociosa e inútil a nossa visita a Cuba, aproveitamos o ensejo de ver uma de suas mais pitorescas e curiosas cidades — Matanzas, onde chegamos depois de algumas horas de viagem costeira. Ai nos esperava o vice-cônsul do Brasil, excelente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr à nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdêssemos oportunidade de contemplar o majestoso panorama do vale de Yumiri, um dos mais belos do mundo, cerca de uma légua distante da cidade.

— Os senhores vão ver um belíssimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brasil, preveniu-nos o cônsul. É uma maravilha!

E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios à topografia do país, cheia de altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, numa disparada única por montes e vales, aos solavancos.

Era quase noite quando parou o último carro, e corremos logo a tal

"maravilha" que o diplomata recomendara.

Aqui têm os aquarelistas motivo sensacional para uma tela rembrantesca.

Crepúsculo... Céu pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão côncava do vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido, verde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.

Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira — larga faixa de veludo cinzento — limita o cenário, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silêncio de abismo.

Vê-se muito ao longe, de um lado da paisagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nódoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de cores esmaecidas.

Há muito que o sol tombou na sua eterna circunvolução diurna. A sombra que se alastra, a plêiade fosforescente dos pirilampos, o silêncio absoluto que nos cerca — tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instintivamente, levantar uma prece à misteriosa Força que rege o Universo.

Existe no alto da montanha a modesta capela de N. Sra. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretensão de nicho de aldeia, com a sua torrezinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do vale.

Caiu de todo à noite, e, no silêncio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressamos para o hotel, cujo salão principal tinha agora o aspecto suntuoso (dados os devidos descontos...) dum refeitório de convento em dia de festa pascoal: mesa lauta, vinte variedades de vinho excelentes e tudo mais que se faz mister num banquete finamente organizado à moderna.

O resto é fácil de imaginar: brindes, hurras, charutos finíssimos... e um sono reparador obrigado a pesadelos.

(continua...)

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