Por Adolfo Caminha (1895)
Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...
Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.
— Basta! ... suplicou Aleixo.
— Não, não! Um bocadinho mais...
Bom-Crioulo tomou a vela, meio trêmulo, e, aproximando-se, continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da volúpia, no extremo da concupiscência, os olhos deitando chispas de gozo...
— Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente já, soprando a luz.
Seguiu-se, então, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas à surdina.
e, quando Bom-Crioulo riscou o fósforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se em pé.
Tais eram os “desgostos” de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe admiravelmente, como um leve barco à feição...
D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: —“o meu bonitinho” é como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.
Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai que se vai fazendo mulher...
O pequeno, muito acessível a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se reconhecido, não subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias à portuguesa, abrindo-se com ela com franquezas ingênuas, deixando-se agradar.
Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena família, não tinham segredos ente si, estimavam-se mutuamente.
Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava naquela casa um asilo de amor, um paraíso de felicidade...
A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique.
Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo natural, aberta à picareta nos seio da rocha dura e implacável, começaram as obras.
Um martelar contínuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de pedra, como numa forja subterrânea: operários em mangas de camisa recomeçavam todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha “barcaça”, enquanto os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilhão que o calor apodrecia no fundo seco do dique. Sufocava, lá embaixo, o cheiro forte dos mariscos em decomposição: subindo como bafos de monturo, resistindo à potassa e ao ácido fênico.
Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.
Dir-se-ia que aqueles homens, operários e marinheiros, não tinham aparelho respiratório, não tinham pulmões, ou estavam saturados de miasmas.
Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma indiferença heróica, sem pensar no grande perigo que os ameaçava.
Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia remédio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro alvoroçado tapando o nariz: — Foge! foge! olha a febre amarela!
Navio no dique, marinheiro à solta. O serviço diminuía, tinha-se mais liberdade, podia-se folgar à vontade, porque o campo era largo, o convés estendiase pela ilha até certa distância. Dali para terra era um pulo, não faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam próximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte.
De vez em quando: “Seu tenente dá licença que eu visite um amigo no hospital? — Vá, mas não demore...”
O hospital ficava no topo da ilha, numa eminência que dava acesso por uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela direção, subindo lentamente aos quatro, em procissões: iam visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra.
Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios à terra. Assíduo no trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obrigações com a mesma paciência de outrora, quando o futuro lhe sorria esperanças de vida melhor, reabilitava-se a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia-lhe concessões prevenindo-o que “tomasse cuidado, não fosse beber demasiadamente”.
Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um verdadeiro pai: a questão era andar direitinho, “portar-se como gente”.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.