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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Estavam no fundo da bodega, numa saleta escura, sem saída por trás, com as paredes encardidas, úmidas, cheirando a cachaça, onde os fregueses tomavam bebidas: “Somente os fregueses de certa ordem”, prevenia o Zé Gato.

— Pois é isto, continuou o Perneta. O pobre Barbosa de Freitas acabou como o grande Luís de Camões, na enxerga dum hospital, e nisto, penso eu, está a sua maior glória.

— Apoiado!

— E o que se vê hoje? Pedantismo somente. Os poetas de hoje usam fraque, gravatas de seda e polainas, escrevem crônicas elegantes, fazem política.

Os Álvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas são gênios que aparecem de século em século, como certos cometas, no céu da literatura!

— Que tal achas o Zuza como poeta? perguntou o amanuense.

— Não me fales em semelhante gente. Aquilo é pior do que um cano de esgoto, homem. Quem chama o Zuza de poeta não sabe o que é ser poeta, nunca leu nosso Barbosa de Freitas. O Zuza emporcalha o papel — nada mais. Aquilo só presta mesmo para capacho do presidente.

A conversa encaminhou-se para a política e João da Mata tomou a palavra. — Que a política era a desgraça do Ceará; que estava cansado de trabalhar gratuitamente para a política. O que queria agora era dinheiro para acabar de levantar uma casinha no Outeiro.

— E que tal o presidente? perguntou o Perneta. Achas que fará alguma coisa em benefício do Ceará?

— Homem, como sabes, eu sou governista, porque infelizmente sou funcionário público, mas entendo que o Sr. Dr. Castro é um grandíssimo pândego.

E noutro tom, limpando os óculos:

— Nós precisamos é de homens sérios, seu Perneta, nós queremos gente séria!

Contou então que na seca tinha ganho muito dinheiro à custa dos cofres públicos; que fora comissário de socorros, e que os presidentes do Ceará eram uns urubus que vinham beber o sangue do emigrante cearense. Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77.

— Aqui pra nós, acrescentou cauteloso, abaixando a voz, o atual presidente não é — justiça lhe seja — um homem sem juízo, um idiota, um leigo, mas, a continuar como vai, forçando a emigração para o sul, dentro de pouco transforma esta terra numa espécie de feitoria de São Paulo. É embarcar muita gente para o sul, seu compadre! Já lá foram quatorze mil e tantos! Isto é despovoar o Ceará, isto é fazer pouco caso do Ceará, c’os diabos!

— É bem feito! disse o Perneta, é muito bem feito para não sermos bestas. Isto é uma terra em que os estranhos fazem o que querem e ninguém protesta, ninguém reage. Nós só sabemos ser maus para nossos patrícios.

— Mas olha que o Cearense tem comido o couro ao homem...

— Qual comido o couro! O povo é que devia dar uma lição de mestre ao governo, a este governo sem patriotismo e sem critério! E com esta me vou, que isso de política fede... Queres mais alguma coisa?

— Olha que demos cabo duma garrafa! Nem mais uma gota. Que horas tens?

O outro puxou um relógio de plaquê desbotado, dentro duma capa de camurça, e erguendo-se:

— Quatro menos cinco minutos. Safa! O tempo voa! Ó Zé, bota na conta isto: uma garrafa de branca.

— Já cá está, acudiu o Zé Gato, muito sujo, com um dedo amarrado num pano preto, o lápis detrás da orelha, arrastando os chinelos. — ...Na conta do Perneta, explicou João da Mata.

E saíram pisando em falso, por entre fardos de carne-seca e caixas de cebola.

— Ó João, perguntou na rua o aleijado, a menina casa sempre com o tipo?

— Quem, a Maria?

— Sim.

— Casa, mas há-de ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem não me entram em casa...

— Mas olha que é um casamentão!

— Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamantes. Ela só há-de casar com quem o padrinho quiser. E adeusinho, menino, adeusinho.

Separaram-se.

Passava um enterro caminho do cemitério. Quatro gatos-pingados, de preto, conduziam o caixão cujos galões de fogo reluziam ao sol. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos, taciturnos, de chapéu na mão, marchavam a passo e passo. Na frente caminhava um padre, de estola e sobrepeliz, olhando para os lados, indiferente, mais um menino de coro de batina encarnada carregando a cruz.

O sino da Sé dobrava a finados melancolicamente. Gente chegava às janelas para ver passar o préstito.

— De quem é? Quem morreu? perguntava-se com mistério.

— A terra lhe seja leve, fez o Zé Gato abanando a cabeça com um ar triste. João da Mata parou à beira da calçada afagando a pêra com os dedos magros e compridos, nervoso. — Quem morreria? pensava. — E, assim que o préstito passou, foi andando devagar, cabeça baixa, equilibrando-se.

No outro lado da rua o Romão, o negro Romão, que fazia a limpeza da cidade, passava muito bêbado, fazendo curvas, de calças arregaçadas até os joelhos, peito à mostra, com um desprezo quase sublime por tudo e por todos, gritando numa voz forte e aguardentada:

— Arre corno!... Um garoto atirou-lhe uma pedra.

(continua...)

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