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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

A gente de Silves não tinha interesse algum na questão, mesmo porque o seu vigário, um pândego, valha a verdade! não se ocupava muito dessas coisas de Igreja. Mas o espírito de partido, muito vivo nas povoações pequenas, o amor da novidade, o instinto de contradição e de luta que divide os homens, mesmo desinteressados e indiferentes ao assunto da discussão, fracionaram a população em dois grupos. Um formara-se dos maçons, dos parentes dos maçons, dos inimigos pessoais do vigário e dos rapazes mais ardentes e mais instruídos. O outro constituíra-se com os homens timoratos e pacíficos, que, de preferência às inovações, queriam viver com os padres, acreditando, ou fazendo acreditar, em tudo o que esses exploradores da humanidade dizem. Francisco Fidêncio tornou-se naturalmente chefe do partido maçônico.

A luta, a falar a verdade, não passara do terreno do palanfrório, consistira unicamente em discussões fortes à porta do coletor ou junto as procissões e Nossos-pais de balandrau e tocha. Francisco Fidêncio era irmão do Santíssimo. A sua brilhante opa encarnada, que por acinte tinha na sala, exposta a todas as vistas, aparecia em toda a parte. Padre José bufava. Por fim tomara o pretexto de tão grande irreverência para acabar com festas e procissões que lhe davam muita maçada. Mas o melhor fora que o correspondente do Democrata lucrara em questão.

Primeiro que tudo, dedicando as suas cartas ao assunto da pendência que dividia os espíritos, atacando o papa, os bispos, os padres todos e especialmente os jesuítas, poupava os habitantes da vila, com exceção dos vigário. Mereceu com esse procedimento que se corresse um véu sobre as críticas antigas, amortecendo os ódios dos ofendidos. Não era mais o escrevinhador insolente, que se ocupava da vida privada de cidadãos conhecidos, achincalhando a reputação do capitão Fulano ou do negociante Sicrano. Passava a ser um escritor preocupado de questões sociais, um sujeito que zurzia os padres, uma espécie de adversário platônico. Os padres que se defendessem!

As antigas vítimas rejubilavam-se, descansadas, livres do temor, esforçandose por esquecer e fazer esquecer as descomposturas recebidas no Democrata. Eram agora elas mesmas que chamavam a atenção pública para os artigos do professor, que os comentavam, indagando hipocritamente se seria verdade tudo aquilo que se dizia do padre José, alardeando indignação, exclamando que tais monstruosidades eram dignas de severo castigo.

Francisco Fidêncio contava à redação do Democrata, por miúdo as pândegas colossais do vigário, as aventuras noturnas, as bambochatas em canoa, as orgias nas praias de areia, ao tempo da desova das tartarugas. Citava nomes, falava da Chica da outra banda, da mulher do Viriato, da Luísa, e até da D. Prudência, veladamente - uma certa Imprudência. Dizia que o vigário bebera o dinheiro da província com as mulatas, em vez de consertar a Matriz, que seduzia as beatas, que prostituía as confessadas, que era ministro de Barrabás... o diabo!

Padre José ficava furioso. Ameaçava quebrar as bitáculas àquele safado, e caluniava-o, espalhando que Chico Fidêncio fora condenado no Rio por gatuno e expulso do corpo de permanentes do Pará por maus costumes, pecados contra a natureza.

Enquanto padre José apanhava bordoadas de cego nas colunas do Democrata, o subdelegado, o escrivão da polícia, o comandante do destacamento, o juiz municipal e o fiscal da Câmara folgavam, comprazendo-se numa feliz obscuridade, e como o vigário não opunha aos artigos do Chico um procedimento exemplar, as censuras e acusações calavam na opinião, o partido maçônico aumentava, uma corrente de simpatia estabelecia-se entre o jornalista liberal e a população de Silves.

Em segundo lugar, a sua posição de chefe de partido reunira em torno da sua pessoa um grupo dedicado e atento, que amparava e aplaudia na luta, dando-lhe prestígio e força. Francisco Fidêncio já se não sentia isolado, as sua palavras eram repetidas por alguns como Evangelho, as pilhérias que lhe saíam da boca tinham curso forçado. As suas opiniões eram aceitas geralmente, com desconto do exagero que lhe atribuíam os tais homens sérios, em questão de doutrina e de dogma:

— Aquilo é maluquice dele, mas tem razão no que diz dos padres.

— Maluquice resmungou Francisco Fidêncio, levantando-se de novo, e chegando à porta do corredor, gritou para a varanda:

— Então, nem um cafezinho hoje! Olhe que a gente não almoçou!

Cessou o ruído dos bilros, e a voz arrastada da Maria Miquelina respondeu lá de dentro:

— Pensei que vuncê não queria nada hoje. Está de burros, paresque!

A caseira já devia saber que, quando o fígado lhe não permitia comer, o Chico Fidêncio bebia muito café. Era a única coisa que o seu estômago suportava. Demais era carioca da gema. Era da terra do café. E quando estava danado, bebia café. No dia em que fora demitido de professor público no Pará, bebera mais de vinte xícaras desse líquido que prolongara a vida de Voltaire.

(continua...)

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