Por Domingos Olímpio (1903)
Nessa evocação saudosa de um passado morto, ressurgiram as adoráveis peripécias da infância, os episódios da vida de adolescente na penumbra da puberdade, salteada pelas primeiras investidas dos instintos; as festas, os Sãos Gonçalos, os Bumba-meu-boi, as vaquejadas, as caçadas de avoantes nos bebedoiros, a colheita dos ovos que elas, abatendo-se em nuvens sobre as várzeas, punham aos milhões, junto dos seixos, das toiceiras de capim, ou nas barrocas feitas, durante o inverno, pelas patas do gado. Sentia ainda zumbir o vento nos ouvidos, quando, em desapoderada carreira, o castanho perseguia, através dos campos em flor, as novilhas lisas ou os fuscos barbatões, que espirravam dos magotes; o ecoar da voz gutural do pai, cavalgando, à ilharga, o melado caxito, e bradando-lhe, quente de entusiasmo: Atalha, rapariga!... Não deixes ganharem a catinga!... E quando ela, triunfante das façanhas do campeio, o castanho a passarinhar nas pontas dos cascos, garboso, vibrátil de árdego, as ventas resfolegantes, os grandes e meigos olhos rutilantes, todo ele reluzente de suor, como um bronze iluminado, o enlevo do pai a contemplá-la, orgulhoso, e indicando-a aos outros vaqueiros: Vejam, rapaziada!... Isto não é rapariga, é um homem como trinta, o meu braço direito, uma prenda que Deus me deu... E as moças, suas companheiras, murmuravam espantadas: Virgem Maria! Credo!... Como é que a Luzia não tem vergonha de montar escanchada!...
Paisagem, fatos, coisas, criaturas queridas perpassavam, confundidos, sós, ou em torvelinhos fantásticos: tudo ao longe, num horizonte de neblinas, como recordações truncadas e vagas de um delicioso sonho interrompido.
O sol surgia rubro, sem pompas de nuvens, destoldado.
Teresinha apareceu à porta do quarto, bocejando e fazendo cruzes sobre a boca escancarada:
— Credo!... – murmurou – Pegou-me o sono que não foi graça... Bom dia, Luzia... Você é muito faceira com esses cabelos...
Bom dia, Teresinha! – respondeu Luzia com uma das madeixas presa aos dentes para lhe poder desembaraçar a extremidade – E mãezinha?...
— Está dormindo, coitadinha, que nem uma criança. Que santo remédio! ...
Somente – já reparou? – de vez em quando ela a modos que se engasga...
— É da moléstia...
— Que inveja tenho dessa cabeleira! Que é que você fez para crescer assim?
— Nada... Água do pote e pente duas vezes por dia...
— Qual! Isso é do calibre da gente... Eu tenho usado tudo quanto me ensinam: óleo de coco, enxúndia de galinha, uma porção de porcarias... Cheguei até a botar nos meus, remédio de botica... Foi mesmo que nada... Sempre ficaram nestes rabichos que nem me chegam às cadeiras...
— Veja só. Ninguém está contente com a sua sorte... Eu, por mim, não se me dava que os meus fossem como os seus. Dariam menos canseira para os desembaraçar e alisar todos os dias...
— Enfim, cada um como Deus o fez...
— Por que não os ensaboas com raspa de juá? Todas as moças, na redondeza das Ipueiras, têm cabelos lindos, que crescem depressa – dizem – por causa da água de lá, que é virtuosa, e da tal raspa... — Vou experimentar.
Houve longa pausa. Teresinha, de olhos apertados, sufocada pela fumaça, soprava os tições. Luzia subjugava os cabelos em grande cocó, no alto da cabeça.
— Às vezes – disse Luzia – tenho vontade de cortar os meus bem rente. Para que pobre quer cabeleira?...
— Que horror! – exclamou Teresinha – Ficar sura?!... Nem falar nisso é bom.
— Não faz mal. Cabelo é bem de raiz: quanto mais se corta mais cresce.
Assim foi com os meus.
— Há gente que usa cabelos postiços. A Maria Caiçara, aquela cara de lua cheia, que é caseira do Belota, tem um enchumaço, que parece dela mesma. Algumas moças brancas e ricas também gostam disso. Dizem até que compram cabelos de defuntas, cortados pelos coveiros do cemitério... Credo!... Eu teria um nojo...
Nessa ocasião, chegou Raulino, sertanejo muito afamado, alto, todo músculos, de cabelos vermelhos e olhos azuis, genuíno tipo de bretão, bravo e meigo, contador de histórias maravilhosas de grande voga. Trazia, em balança, nos ombros, uma grande toalha de algodão da terra, com uma trouxa em cada extremidade.
— Bons dias, meninas! Como vai tudo por esta casa?
— Assim, assim – respondeu Luzia – E você?
— Eu? Como pobre. Não estou bem em pé, mas encostado, e vou furando, como Deus é servido, o oco deste mundo, até topar na morte. Estão aqui as rações: a sua, sra Luzia, e mais a da velha. Como você não pôde ir trabalhar o capitão José Silvestre me perguntou se eu podia trazê-las. Então respondi: Que é que eu não farei por semelhante gente? Era para vir ontem de tarde, mas porém fui pegar um veado de estimação, que fugiu da casa do doutor e só pude dar com o bicho à boca da noite, lá perto do córrego da Roça. Então resolvi vir agora de manhãzinha.
— Deus lhe pague.
— Ainda não lhe paguei eu, sra Luzia, a esmola que me fez... Se não fosse você, abaixo de Deus, o boi me desgraçava daquela feita...
— Ora, ora, ora... Grande coisa!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.