Por Aluísio Azevedo (1880)
De repente, alguma coisa lhe prendeu a atenção. — Era um som longínquo e profundo, que vinha do jardim pelo lado oposto às salas do baile; Rosalina reclinou vagarosamente a cabeça para aquele som, gemido ou voz, suspiro ou música, e, caindo de novo no divã, quedou-se embevecida a escutá-lo.
O som lembrava ora um mugido de uma criancinha, ora o ciciar da brisa; voz da natureza ou suspirar de homem, chegava-lhe ao coração essa música como coisa estranha, impressiva e sobrenatural.
Havia nesse murmurar um não sei o que de humano e um não sei o que de celeste; mal se diria se eram notas plangentes que vinham do céu ou se uma harmonia de lágrimas, caindo gota a gota numa taça de cristal; enfim, participava tanto do céu como da terra — poder-se-ia dizer que era o roçar das asas dos anjos pelo coração do homem.
Era uma rabeca que falava a linguagem da inspiração — idioma divino só compreendido pelas almas bem formadas.
Rosalina conhecia bem o metal daquela voz; conhecia a rabeca, o arco e conhecia a música, porém a sua alma embalde se esforçava por compreendê-la ainda; produzia-lhe já o efeito de uma língua estranha, digamos de uma língua morta.
E, contudo, a rabeca soluçava a última composição que Miguel lhe dedicara na casinha branca.
Apossou-se então de Rosalina um entorpecimento pesado e sombrio, quase sonambulismo; e, nesse estado, que se pode chamar de crepúsculo entre a vida real e o sonho, sentia e ouvia, alucinada, aqueles gemidos indecisos e plangentes, que parecia saírem das profundezas da eternidade para vir condená-la no meio da fortuna e do vício.
De quem poderia ser aquele gemer? De homem certamente que não; só uma alma penada saberia gemer assim.
Então, assistia-lhe a vontade de chorar.
— Chorar? por quê?
A consciência negava-lhe a resposta, como os olhos negavam-lhe as lágrimas; e o pranto não passava do coração.
Infeliz daquela a quem não é dado chorar; só o pranto afaga a dor que a vontade não vence destruir.
Lutando com tais opressões, Rosalina ergueu-se no intuito de respirar mais livremente o ar da noite; o terror, porém, não lho permitiu e fê-la estacar defronte da janela, afigurando-se-lhe que, se a abrisse, iria despertar o espírito errante, que porventura a chamava do jardim. E tomada desses sobressaltos foi se quedando triste e cismadora a escutar a música funérea.
Nisto dilatou-se a cortina de damasco, onde por acaso tinha Rosalina o olhar ferado, e o moço dos bigodes pretos entrou risonho e sem-cerimônia no aposento.
Ah! fez Rosalina voltando a si, e sorriu.
O cavalheiro debruçou-se carinhosamente e com elegante desembaraço sobre ela e, travando-a da cintura, beijou-lhe a fronte.
Desapareceu a luz e a porta da alcova fechou-se protetoramente sobre eles.
Entretanto, no jardim, o violino continuava a soluçar com o desespero de um órfão pequenino.
CAPÍTULO VI
Dois dias decorreram depois da última noite do baile; e Rosalina, como vamos ver, chegou a descobrir a origem da música esquisita e plangente, que nessa noite embalara poeticamente os seus prosaicos amores com o moço de bigodes pretos.
Antes, porém, de prosseguir, seja-nos permitido dar de passagem uma idéia ligeira do perfumoso ninho de Rosalina.
Constavam os seus aposentos particulares simplesmente de uma sala vermelha e de uma alcova cor de lírio, ligadas entre si por elegante portinha, em cujos ornatos entalhados dos olivares, florões polidos de encarnado carmezim sobressaiam, como espumas de sangue, da brancura natural da madeira. De uma única janela existente na sala debruçava-se sobre o jardim pitoresca balaustrada de mármore rajado, feita e disposta ao antigo gosto veneziano. A sala era oitavada, guarnecendo-lhe as faces do octógono quadro do mesmo feitio, que molduravam um metal branco brunido formosas gravuras sobre aço; as cortinas da mesma cor das paredes prendiam-se graciosas em cornijas também de metal branco, uniformizadas pelo brilho com as reluzentes peanhas dos ângulos das paredes e com os trabalhados tamboretes igualmente de metal. Os pés de quem tivesse a fortuna de entrar nesse paraíso elegante, desapareciam silenciosamente no tapete, cuja felpa abundante e sedosa dava ao andar de quem o pisasse a suavidade voluptuosa dos passos macios do gato - parecia andar a gente descalça sobre algodão em rama. No centro dessa luxuosa salinha uma mesa redonda pé-de-galo, coberta por magnífica casimira da China, sustentava um candeeiro de alabastro, com listrões de ouro lavrado; num dos ângulos da parede, mimosa escrivaninha mostrava o necessário para ler e escrever; num outro, acomodava-se belo esquentador de pedra negra, guarnecido por um relógio de bronze e dois soberbos vasos de porcelana do Japão. O mais seriam cadeiras, divãs estofados, cristais da Boêmia e uma infinidade de nadinhas de luxo, que dão a qualquer sala um aspecto embonecado e fútil.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.