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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Então, vieram-lhe à lembrança, sob uma reminiscência lúcida e saudosa — o seu casamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quitéria. Tudo isso nunca lhe pareceu tão bom, tão apetecível como naquele momento. Agora, descobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as quais nunca atentara dantes.

“Seria eu o culpado de tudo?... Não teria cumprido com os meus deveres de bom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?..” interrogava ele à própria consciência; esta respondia opondo-lhe duvidas que valiam acusações. Ele defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor, lembrava a sua dedicação e a sua amizade pela defunta; mas a maldita rezingueira não se acomodava e não aceitava razões. E José abriu a chorar como um perdido.

Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas no cavalo. Correu muito, à rédea solta como se fugira perseguido pela própria sombra.

“E se eu o matasse?...”

Era a maldita idéia que vinha de novo à superfície dos seus pensamentos.

“Não! Não!” E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua imaginação, como o assassino que repele no mar o cadáver da sua vítima; ela mergulhava com o impulso, mas logo reaparecia, boiando.

“E se eu o matasse?...”

— Não! não! exclamou, desferindo um grito no silêncio da floresta. Já basta a outra!

E assanhavam-se-lhe os remorsos.

Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho; José suava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos eriçava-lhe os cabelos.

No entanto — corria.

Pouco lhe faltava já para chegar à fazenda, muito pouco, uma miserável distancia, e, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto da viagem. Fechou os olhos e deixou que o cavalo corresse à toa, galopando ruidosamente na terra úmida de orvalho. Ele ofegava, acossado por fantasmas Via a sua vitima. com a boca muito aberta, os olhos convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa voz de moribunda, a língua de fora, enorme e negra, entre gorgolhões de sangue. E via também surgir aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe, sorrindo, um alvitre, propor uma condição e passar logo à ameaça brutal: “Tenho-te na mão, assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te à justiça! “ E José gritou, como doido, soluçando:

— E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!

Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detrás do tronco de um ingazeiro, e uma bala, seguida pela detonação de um tiro, varou o peito de José da Silva.

Os negros de São Brás viram aparecer lá o animal as soltas, e todo salpicado de sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada, correram todos nessa direção à procura da vítima.

Foi Domingas que a descobriu, e, num delito, precipitou-se contra o cadáver, a beijar-lhe as mãos e as faces.

— Meu senhor! meu querido' meus amores! exclamava ela, a soluçar convulsivamente.

Mas, tomada de uma idéia súbita, ergueu-se, e gritou, apontando vagamente para o lado da vila.

— Foi ele! Não foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!

E pôs-se a rir e a dançar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que voltava.

O crime foi atribuído aos mocambeiros e o corpo de José da Silva enterrado junto à sepultura da mulher, ao lado da capela, que principiava a desmoronar com a mingua dos antigos cuidados.

A fazenda aos poucos se converteu em tapera e lendas e superstições de todo o gênero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vigário do lugar, pessoa insuspeita e criteriosa, nem só confirmava o que diziam, como aconselhava a que não fossem lá. ''Aquilo eram terras amaldiçoadas!”

Anos depois, contavam que nas ruínas de São Brás vivia uma preta feiticeira, que, por alta noite, saia pelos campos a imitar o canto da mãe-da-lua.

Ninguém se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que se perdesse em tais paragens, via percorrer o cemitério, a cantar e a rodar, um vulto alto e magro de mulher, coberto de andrajos.

A morte inesperada de José causou grande abalo no irmão e ainda mais em Mariana. Raimundo era muito criança, não a compreendeu; por esse tempo teria ele cinco anos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e disseram-lhe que estava de luto pelo pai. Manuel tratou do inventário; recebeu o que lhe coube e mais a mulher na herança; depositou no recém-criado banco da província o que pertencia ao órfão e, apesar das vantagens que propôs para vender ou arrendar a fazenda de São Brás, ninguém a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo esclarecimentos à Casa Peixoto, Costa & Cia., e uma vez bem informado no que desejava, remeteu o sobrinho para um colégio daquela cidade.

Muito custou à bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Doía aquele coração amoroso ver expatriar-se, assim, tão sem mãe, uma pobre criança de cinco anos. O pequeno, todavia, depois de preparado com todo o desvelo, foi metido, a chorar, dentro de um navio, e partiu.

(continua...)

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