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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

O primeiro ponto da minha questão era, pois, fazer desaparecer a imoralidade de dentro do casamento monógamo. Ora, este casamento era imoral e trazia o tédio e o cansaço por parte de cada um dos cônjuges, só porque depois do desempenho do primeiro filho, o pai e a mãe incompatibilizavam-se entre si para a concepção perfeita de um novo descendente. Tratei pois de descobrir em que consistia a causa dessa incompatibilidade. Não foi preciso grande esforço de inteligência para dar logo com ela: É que o entusiasmo sensual, o amor, de um pelo outro consorte, era um puro produto da imaginação e do desejo de ambos, e desde que os dois se não separavam nunca, nem só se podiam desejar de novo, como igualmente não podiam manter, de parte a parte, a mútua e cativante impressão que os havia ligado.

O instinto da conservação da espécie, que é o amor, deve ser de qualquer modo tratado como o instinto da conservação pessoal, que é a fome. Não há estômago que resista a faisão-dourado todos os dias; o melhor acepipe, se não for discretamente servido, enfastiará no fim de algum tempo. O mesmo acontece no matrimônio: os cônjuges acabam invariavelmente por se enfararem um do outro, não pelo uso que fazem do seu amor, mas pelo abuso mútuo da convivência e da ternura.

Se tens um prato predileto, que se dá bem com o teu paladar e com o teu estômago, e o qual não podes ver sem sentires a boca lubrificada pelo apetite, não abuses desse estimável prato, para que ele se não inutilize para o teu desejo, e para que possas continuar a saboreá-lo com o mesmo gosto; e principalmente não comas dele sem boa vontade.

A pessoa amada ganha sempre valor e novo prestígio aos olhos do amante, quando dele se afasta por algum tempo. É nessa reforçadora ausência que ela é mais desejada e querida. Dois amantes, inopinadamente arrancados dos braços um do outro e desunidos por um pequeno espaço de tempo, continuarão a amar-se e a cobiçar-se com a mesma primitiva intensidade de antes da posse; enquanto, deixados tranqüilamente juntos, na mesma casa, na mesma mesa, na mesma cama, no fim de alguns meses já nenhum dos dois enxergará no companheiro os elementos de sedução que os inodou sacramentalmente, e cada um há de perguntar de si para si, com a mais sincera estranheza, por que diabo se apaixonou por aquela criatura que ali está a seu lado, a ponto de unir-se com ela para sempre, por um voto eterno?

E tanto assim é, que, no caso, infelizmente tão comum, de homens casados que mantêm uma concubina fora da casa em que moram, e com a qual não convivem todos os dias, nem todas as noites, mas que freqüentam a furto, uma vez por outra, amam sempre e sempre, dado mesmo a hipótese de igual valimento físico entre as duas, muito mais a amante do que a mulher legítima, e são por ela capazes de sacrifícios e esforços que já lhes não merece a esposa.

Dir-me-ão alguns que é porque mesmo ele nunca amou deveras a consorte; que se enganara quando supunha amá-la, e que só depois do casamento, já irremediavelmente tarde, reconheceu o seu erro; e que na outra mulher fora encontrar afinal a “afinidade eletiva”, ensinada por Goethe, e pois sentira-se irresistivelmente arrastado para ela.

“O amor que pôde extinguir-se não era amor!” dir-me-ão outros com o poeta.

Pois sim! era bastante que aquelas duas mulheres trocassem as posições entre si, para que o decantado amor também trocasse de objetivo. Fosse a concubina morar com o amante, conviver com ele noite e dia; e começasse a esposa a ser visitada pelo marido somente de longe em longe, em furtivas escapulas, e veríamos qual delas seria, no fim de algum tempo, a mais amada e desejada — a amante de cama e mesa ou a esposa proibida?

Há muito exemplo de marido, que só vejo a amar deveras à mulher, depois que esta lhe fugiu para os braços de outro, ou de outros.

Quando um homem e uma mulher são condenados por lei a viver eternamente inseparáveis, o corpo pode ceder a tal violência, mas a imaginação, que é a mãe do amor, essa reage e foge, põe-se ao largo, onde as suas asas encontrem livre o espaço e o vôo franco. O espírito do homem é por natureza independente e só se poderá escravizar a uma mulher, o que não é tão comum, quando o faça, não por lei de qualquer espécie, mas por livre e espontânea vontade.

A legítima esposa, que vive inalteravelmente ao lado do marido, pode, a força de virtude e de bondade, conservar e até desenvolver a estima, a consideração e o respeito, que ele lhe tributa; pode ser amada moralmente. Mas o outro amor, o sensual, esse belo instinto tão necessário ao bom resultado da progênie, esse vai para a mulher ilegal, para a inconfessável amante, cujos beijos são mais apreciáveis, porque são mais raros, cujas horas de convivência são preciosas, porque são contadas, minuto a minuto, e cujo ligeiro contacto de corpo é sempre, para ele, um gozo conquistado, seja pela ternura, seja pelo dinheiro, e nunca um dever imposto por lei ou um direito exercido com sacrifício.

(continua...)

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