Por Aluísio Azevedo (1887)
— Oh! exclamou o doutor, enquanto o Conselheiro lhe deu conta disto: — Eu punha-a esperta e sã em pouco tempo, se me dessem carta branca para isso! A questão dependia toda do enfermeiro que lhe arranjasse! Aquelas lamúrias e aquelas lágrimas ir-se-iam logo embora com a primeira semana de lua de mel!
No entanto, Magdá continuava a sofrer: a tosse não a deixava senão quando ela se recolhia à cama; deitada não tossia nunca, mas, em compensação, aparecia-lhe uma espécie de asma. Agora, uma das suas manias era pôr-se à janela do quarto e aí permanecer horas e horas esquecidas, a ver o serviço da pedreira que ficava defronte, olhando muito entretida para os cavoqueiros, e ouvindo a toada que eles gemem quando estão minando a rocha para lhe tocar fogo. Parecia gostar de ver os trabalhadores; como se lhe aprazia aquela rica exibição de músculos tesos que saltavam com o peso do macete e do furão de ferro, e daqueles corpos nus e suados, que reluziam ao sol como se fossem de bronze polido.
E, quando alguém ia chamá-la para a mesa ou para conversar com o pai, respondia zangada, sem tirar os olhos da pedreira:
— Não posso ir! Deixem-me!
E se insistiam: — Ó senhores, que maçada! Não posso ir, já disse! Estou doente! Oh!
Depois do ataque de letargia, foram voltando pouco a pouco s esquisitices de gênio e os caprichos de crianças estragadas com mimos; quase nunca se desprendia do quarto e, nas poucas vezes que lhe surgia por lá alguma camarada dos bons tempos, por tal modo se mostrava seca e até grosseira, que a amiga tratava de abreviar a visita e saía sem a menor intenção de voltar.
Nem mesmo a própria criada queria já suportá-la, apesar de muito bem paga. "Pois não! Era uma impertinência todo dia! um rapelão por dá cá aquela palha! — Se a gente não ia logo correndo saber o que serrazina queria quando chamava — tome sarabanda! — Oh! Insuportável! Uma verdadeira fúria! De mais a mais a "barata velha" ultimamente também dera para ficar pior, e havia quase duas semanas que se não desgrudava da cama nem à mão de Deus Padre!"
Pobre velha! Consumia-se numa infernal complicação de moléstias; eram intestinos, era cabeça, eram pernas, era o diabo! Parecia uma decomposição em vida: fedia como coisa podre! Já se não alimentava pela boca; os seus gemidos eram arrotos de ovo choco, e os humores que ela expelia por toda a parte do corpo empesteavam a casa inteira.
— Essa não tem mais que esperar! declarou bem alto o Dr. Lobão, olhando-a desdenhosamente por cima dos óculos, como se a mísera fosse já um defunto e não pudera ouvir-lhe a desumana profecia. — Está despachada! A consumpção deu-lhe cabo do canastro!
Metia dó. Veio uma velhinha, sua camarada de muitos anos, ajudá-la a morrer, e consigo trouxe duas escravas, especialistas em servir a enfermos desenganados, porque a senhora tinha mania de acompanhar os últimos instantes de todas as amigas que se iam antes dela. A casa parecia um hospital: sentia-se cheiro de enfermaria e andavam todos sarapantados, cheios de terror pela morte; de manhã à noite faziam-se rezas em torno do doente. O Conselheiro quis que a filha se afastasse daquele espetáculo e fosse passar algum tempo em outra parte; Magdá opôs-se de pé firme e deixou-se ficar ao lado da tia, rezando com tamanho empenho que fazia crer que só com seus esforços contava para salvar-lhe a alma.
O médico dissera a verdade: quatro dias depois da sentença lavrada por ele, D. Camila pediu um padre, muito aflita. Era já a morte que pegava de agoniá-la.
Correu-se a chamar Nosso-Pai.
Não veio logo; e a moribunda, como quem está com o pé no estribo para uma longa viagem e arrisca a partir sem levar um objeto que lhe há de fazer muita falta em caminho, remexia inquieta a cabeça sobre os travesseiros, lançando contínuos olhares de impaciência para a porta do quarto.
O Viático demorava-se.
O Conselheiro ia de vez em quando até a janela de uma das salas que davam para a rua e passeava ansioso pelo segundo andar.
— Chegou! Disse por fim, retornando ao aposento da irmã.
Houve uma enternecida agitação. Ouviu-se o toque de uma campainha ecoando nos corredores da casa, e a velha Camila teve um suspiro de alívio. — Já não partiria sem a sua extrema unção!
O padre entrou com os ajudantes, muito cerimonioso debaixo do pálio, agasalhando a hóstia consagrada junto ao peito, com os cuidados de quem traz uma vasilha cheia até as bordas e não quer entorná-la. Fez-se em redor dele e da paciente respeitoso silêncio; apenas se ouviam, além dos roncos da moribunda, a voz abafada do sacerdote, que resmungava numa alternativa de sussurros, ora mais alto, ora mais baixo, sem fazer pausas, como se estivesse contando intermináveis algarismos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.