Por Aluísio Azevedo (1890)
- Devo-te isso tudo, acrescentou depois. - Mas tudo isso te tenho pago em confiança e amizade. E tu, entretanto, só porque um dia eu fui roubar-te a amante, tu te fizeste mesquinho e vil, indigno da minha companhia, porque não tens coragem de lutar frente a frente contra mim, porque te embuças no anonimato covarde das conspirações.
E mais violento:
- Eu posso ser amigo do meu adversário. Mas desprezo o hipócrita que maquina nas trevas.
- Pois bem, senhor! cartas na mesa, disse o Satanás levantando-se.
- E assim que eu gosto de jogar as partidas.
- Então, diga-me primeiro: onde está minha filha?
- Tua filha! Quem é tua filha?
- Quem é minha filha! gargalhou Satanás na sua gargalhada louca de velhas armaduras que rangiam. - Quem é minha filha!
E resfolegou longamente, para continuar depois:
- Miserável sedutor! hipócrita tu mesmo! mentiroso e covarde! D. Pedro avançou para o escultor.
Este deteve-o, porém, com um gesto forte de comando.
E prosseguiu:
- Eu vi-te, sem desonra para ninguém, penetrar na câmara nupcial destes fidalgos. Queriamouro e brasões heráldicos, e tu levavas-lhe uma cornucópia toda inteira para lhes satisfazer a ganância e as aspirações. Eu vi-te descer ao mais baixo dos bordéis, onde a moeda de prata chega muitas vezes para saciar os apetites de um homem. Somente houve um lugar onde eu nunca te conduzi, cuja porta eu defenderia contra os teus pedidos e contra as tuas ameaças. Era o asilo da inocência e da candura. E foi lá que tu foste buscar minha filha!
- Tua filha! Tua filha! Mas fala! Eu não te entendo.
- Covarde! Tu me dizias ainda há pouco que eu me escondia para conspirar! E que fazes agora?E que fizeste tu?
O príncipe recuou dous passos, subjugado pelo olhar do Satanás.
E este continuou ainda, imprecativamente:
- Sim, eu te odiava e te acompanhava, colava-me a ti como a tua sombra, porque quero saberonde ocultas a minha filha, a pálida e meiga filha dos meus amores, que todos deviam adorar de joelhos, e que tu profanas com o teu hálito envenenado de crápula.
- Mas eu não sei de tua filha, e nem sabia que ela era tua...
- Tanto te rebaixaste que chegas a mentir! Amar Branca deveria ser entretanto a purificação dasalmas perdidas. Aquela criança tem tanta inocência e tanta candura, que o seu amor deve chegar para o perdão de Deus caindo sobre os infernos como bálsamo caindo sobre feridas. Mas tu, miserável que és, e miserável que nasceste! tu não pudeste te redimir nas asas brancas daquele anjo, que sempre e sempre parece remontar-se para os céus. E te acovardas, e tremes perante a voz vingadora do pai que se ergue contra ti, como a verdade possante da justiça.
- Cala-te, bradou d. Pedro. - Por Deus! Cala-te, Satanás!
- Ah! tens medo de me ouvir! Tens medo que eu te escarre ao rosto toda a tua infâmia!
- Cala-te, repetiu o príncipe desembainhando a espada e investindo contra o outro, cala-te!
O Satanás precaveu-se a tempo e aparou o bote com a sua arma de boa lâmina florentina.
E a luta começou então hercúlea e titânica. Mestres ambos e conhecedores dos segredos da esgrima, eles digladiavam-se silenciosamente, muito calmos, na grande exuberância vital das suas paixões.
Ouvia-se apenas o estuar das respirações arquejantes.
Mas, de repente...
XII
FERIDO!
... Branca apareceu à porta, com os olhos desmedidamente abertos, os cabelos soltos sobre o vestido malcuidado e roto. Muito pálida, de olheiras roxas, aparecendo de súbito na moldura da porta, a filha de Pallingrini parecia um fantasma.
Por detrás dela, percebia-se a fisionomia de d. Bias, com a pêra trêmula, oscilando no queixo, e os bigodes arrepiados por um calafrio de medo.
Assim que terminara, dissolvida pelo príncipe, a sessão do Apostolado, d. Bias fora um dos primeiros a sair. Pusera-se a caminho para o Carmo, onde Branca continuava prisioneira. E, ruas afora, d. Bias pensava nela, monologando:
- Amo-a! (levantava um braço), idolatro-a (e levantava o braço), idolatro-a! (e levantava umaperna), venero-a (e agachava-se todo).
De espaço a espaço, um lampião de azeite projetava na rua uma larga toalha de luz. E a sombra de d. Bias estendia-se fantástica, desconjuntada, sacudida de gestos frenéticos, numa pantomima macabra.
- O flor mimosa! pérola divina! (punha os dedos na boca, enviando através da noite um longebeijo apaixonado) o meu peito é uma frágua! (dava um murro no peito). Ah! como é que eu, que tenho vencido tantos homens (segurava a durindana), não te consigo vencer! (abria os braços desoladamente).
Um homem que passava gargalhou, vendo a gesticulação de d. Bias:
- O borracho! vai cozinhar a bebedeira!
O fidalgo espanhol tornou a si: estava diante da tasca do Trancoso. Por hábito, as suas pernas tinham-no trazido até ali, ao Piolho, quando o seu destino era o Carmo. D. Bias, porém, não quis perder a viagem. Parou de pernas abertas, passou três vezes a mão pela testa, suspirou:
No bay como una libación, A un aflito corazon.
E entrou na bodega, onde ficou duas horas afogando os suspiros no pichel.
Quando saiu, fraqueavam-se-lhe as pernas. Andava tudo à roda.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.