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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Ela chamou um carregador de sua confiança, ordenou-lhe que levasse o cesto de roupa para o Campo de Sant’Ana, e, atirando um xale sobre os ombros, segredou-me ao ouvido:

- Antes de tudo, vamos procurar meu compadre.

- Onde o vamos procurar?

- Na Rua do Ouvidor.

- Na redação dO Paiz?

- Ai, ai!

A idéia de entrar na redação dO Paiz ao lado de minha sogra pareceu-me a mais ridícula do mundo, mas não havia que hesitar: a mulher prometera restituir-me a filha e isto era todo o meu empenho.

Ao chegarmos ao escritório da folha, ia perguntar a um moço loiro que estava ao balcão, se era possível falar ao Sr. Quintino, quando minha sogra me puxou pelo braço e exclamou:

- Não esteja a perder tempo! Quando se quer falar com alguém vai-se logo subindo!

E, antes que eu a detivesse, já o demônio da velha galgava as escadas e, com um desembaraço dos diabos, levantava pouco depois o reposteiro da sala privada da redação, gritando para dentro:

- O compadre dá licença?

- Entre - respondeu o redator-em-chefe da folha.

Ela não esperou segunda ordem e ganhou a sala, exclamando para mim, que ia atrás:

- Entre você também, meu genro!

A estas palavras o redator espichou levemente a cabeça e mediu-me com o seu olhar penetrante e desconfiado.

- Que deseja a senhora? - perguntou ele.

- Venho. para saber que há de novo sobre o homem.

- Se a senhora tivesse lido O Paiz, saberia que se vai proceder amanhã à exumação do cadáver no Cemitério de São Francisco Xavier.

- De que cadáver? - perguntei empalidecendo.

- Do suposto Castro Malta.

- Pois é tempo perdido - disse eu -, porque ele lá não está.

- Disso já sei eu! - acrescentou o Sr. Quintino -, mas quero levar a questão avante.

- O Castro Malta está em minha casa. Posso apresentá-lo, quando V.Sª. quiser.

- O senhor está louco?

- Digo a verdade. Se V.Sª. quiser a prova, eu o trarei amanhã aqui.

- Não. Quero que traga hoje mesmo - respondeu o redator, correndo a sua mão pálida por um pesa-papéis que estava sobre a mesa e representava uma luva amarrotada.

- Mas hoje mesmo não é possível - retorqui. - Daqui tenho de ir com minha sogra a...

- Não! - atalhou esta. - Não! Se você diz que o Castro está em sua casa, vamos lá em primeiro lugar. Quero vê-lo!

- Mas, esse Castro - perguntou o Sr. Quintino a Dona Leonarda -, esse Castro não é o mesmo que a senhora me afiançou haver morrido na Casa de Misericórdia?

- É, ou pelo menos deve ser.- Mas então como está vivo?

- Ora essa! porque não morreu!

Tive ímpetos de confessar ao redator tudo que sabia a respeito do fato do Cemitério; mas por esse tempo a questão Castro Malta havia já tomado tais proporções entre o público que eu, receoso de futuros incômodos, resolvi não dar uma palavra, arrependido até de haver feito a declaração que me escapara dos lábios.

- Bem! - disse o Sr. Quintino - amanhã. Espero-os aqui às 11 horas do dia. Não faltem.

- E se o homem não quiser acompanhar-me? - perguntei.

- Nesse caso irei eu ao encontro dele. Olhe! é até melhor que eu vá justamente. Deixe-me o número de sua casa e espere amanhã por mim às nove horas.

- Da manhã?

- Sim, senhor.

Fizemos as nossas despedidas ao Sr. Quintino e, já na Rua do Ouvidor, quis convencer a minha sogra de que devíamos ir primeiro ao encontro de Margarida, mas a velha não cedeu e puxou-me para os lados de minha casa.

“Em que diabo de trapalhada me meti!....” - pensava eu pelo caminho. - “Afinal a questão caiu já no domínio público; de dia para dia ela toma um caráter mais sério, e não quero pensar em quais serão para mim as conseqüências de tudo isto!... Ah! Margarida, Margarida, mal sabes tu o martírio que me tens feito passar! ...” Só às nove da noite chegamos a casa.

Minha sogra arfava de impaciência ao meu lado, enquanto eu abria a porta.

- Quem é? - perguntou uma voz de dentro.

- Ai! o meu rico homem! - exclamou a velha, levando aos olhos uma das pontas do xale.E, apesar da escuridão, enfiou de carreira pelo corredor.

XIV

Tive de assistir a uma cena de ternura: Dona Leonarda, mal avistou meu hóspede, abriu em três pulos uma carreira que foi acabar nos braços dele.

Apertou-o, beijou-lhe os lábios, chorou-lhe sobre o peito a sua velha e crônica saudade.

Castro Malta deixava-se amimar, sem uma palavra de oposição ou de ternura.

- Tu me amas? - perguntou-lhe ela com a voz sumida e estrangulada de comoção. - Tu me amas, Castro?

- Pois não! - respondia ele, já impaciente.

E, voltando-se para mim, enquanto a velha o estreitava nos braços:

- Eis a vida, meu amigo! Eis a vida! Pense e reflita sobre este caso e diga-me depois a razão, por que sou tão estremecido por esta mulher.

- Castro! - repreendeu a velha, abaixando os olhos, muito séria.

- Mas se é assim... - ia continuar o ressuscitado, quando eu, vendo que a cena ameaçava prolongar-se por muito tempo, resolvi cortá-la, dizendo ao amoroso casal que estava defronte dos meus olhos:

- Bem, jovens pombos apaixonados, agora que já se abraçaram à vontade, agora que, segundo julgo, já não há restos de saudade viva dentro de nenhum de vocês dous, vamos tratar do que a todos nos interessa.

(continua...)

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