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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Que é isto? perguntou o Borges.

— A senhora deu-nos ordem de preparar o necessário para uma viagem...

— Viagem de quem?!

— Nossa não é, com certeza, porque nós já estamos despedidos — Quem vai viajar?! Desembuchem, com os diabos!

— A senhora, naturalmente; pelo menos esta roupa é dela.

Borges subiu ao segundo andar; encontrou a mulher muito tranqüila, sentada no divã, a ler.

— A senhora tenha a bondade de explicar que desordem é aquela lá em baixo? Que significam aquelas malas, aqueles preparativos de viagem?!

— O que vê. Trata-se justamente de uma viagem.

— Viagem de quem?

— Minha. Vou, uma vez que o senhor não quis ir. Juntos é que não ficaremos por coisa alguma! Não me quero arriscar a uma segunda agressão! Não posso ficar numa casa, onde não tenho a menor garantia, onde nem o meu quarto de dormir é respeitado!

— Mas a senhora esquece-se de que é minha esposa? A senhora não vê logo que eu não a deixo sair assim, sem mais nem menos?...

Filomena ergueu-se em silêncio, sacudiu os ombros e retirou-se da sala. O Borges acompanhou-a.

— Filomena! disse ele.

— Que é?

— A senhora não tencionará acabar com essas coisas por uma vez?...

— Que coisas?

— Esses caprichos! Então está sempre resolvida a fazer a viagem?

— Estou.

— Pois nesse caso irei também! Acompanhá-la-ei ainda que seja para o inferno. Roberto! ó Roberto do diabo! Corre! arranja-me uma mala!

— Bem! Nesse caso não irei, disse Filomena, fechando o livro, que tinha entre as mãos.

— É então um propósito firme de contrariar-me em tudo?! perguntou o marido, trêmulo de raiva.

— O senhor é que está nesse propósito! Parece que anda inventando meios e modos de mortificar-me! É bastante que eu mostre gosto em qualquer coisa para o senhor fazer logo justamente o contrário! Isso prova que o senhor não me ama! Que o senhor não deseja ter uma esposa; deseja éter uma mulher às suas ordens! Animal! Bruto! Estúpido!

E, possuída de um violento sobressalto de nervos, atirou-se de bruços no divã a soluçar, a morder-se.

Borges correu para junto dela; tomou-a nos braços, fê-la encostar a cabeça no seu colo, e, com muita ternura, os olhos úmidos, começou a acarinhá-la, a dizerlhe todas as meiguices que lhe inspirava o amor.

— Oh! Mas para que havia de se mortificar daquela forma?... Para que se maltratar assim? para que enodoar com os dentes aquelas mãozinhas tão formosas?... O fato da véspera não justificava semelhante desespero! Se algum dos dois devia estar ressentido, era ele de certo, porque...

— Não! Não! Tu procedeste como um selvagem!,.. Tu foste violento! Tu foste brutal!

— Porque te adoro, minha vida!

— E juras que me amas?! Juras que não conheces outro ideal, outra preocupação, que não seja eu?! Juras que serás capaz de todos os sacrifícios por minha causa?!

— Ainda o duvidas?!

— Bem! Iremos juntos nesse caso; faremos os dois a viagem!...

— Sim, mas não é bonito, nem há razão para sairmos tão precipitadamente!

— Mau! Já principias tu com as objeções do costume!... Dessa forma não teremos nada feito!

— Mas, vem cá, minha santa, é que não há a menor necessidade de irmos como dois criminosos, que fogem à justiça! Para que havemos de nos sujeitar a umas certas coisas, quando, graças a Deus, não nos faltam recursos para termos todas as comodidades?...

— Oh! Eu mesmo faço muito caso das comodidades!...

— Sim, mas hás de confessar que...

— Ah! meu amigo! se tens medo de sair de teus hábitos, o melhor é desistirmos da viagem! Quem quer estar a gosto fica em casa!...

— Não é isso! não é isso! Já não está quem falou! Oh! Tu também te espinhas por qualquer coisa!...

— Pois então, nem mais uma palavra sobre o assunto, e, no primeiro vapor que sair para a Europa...

— Estamos de partida!

— Ora muito bem!

CAPÍTULO VI

PRIMEIRA DESILUSÃO

Não obstante, o Borges ainda não se podia considerar feliz. A mulher, depois da cena da alcova, tornou-se mais esquiva; enquanto que a paixão dele, como se recebesse um novo impulso, recrudescia de um modo fantástico. Mas continuava a ser o seu amante platônico, o seu namorado, disputando um sorriso, um olhar de ternura, à custa de enormes sacrifícios.

Durante os dias que precederam à viagem, o mísero não fez outra coisa além de procurar meios engenhosos de seduzir a esposa. Certo de que a violência não produzia bons resultados, tentou captá-la com presentes de grande valor; punha, a todo momento, à disposição dela, jóias caríssimas, cortes de seda do que havia de melhor. Depois, desiludido também por esse lado, lançou mão de outros recursos — tentou fasciná-la com a grandeza, falou-lhe em belas posições sociais, falou no seu título, que não devia demorar muito; mas, ainda assim, nada conseguiu: o maldito ferrolho estava, inabalável e frio, como uma lei da natureza.

(continua...)

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